segunda-feira, 22 de junho de 2015

QUADRILHA
Ela era Maria. Havia o João, pai dela. E ainda o Antônio e o Pedro. Não faltava nenhum elemento na quadrilha. João era quem comandava essa dança. A dança das cadeiras. Não roubavam bancos porque não havia bancos na cidade, tirante os bancos da praça, que esses já estavam em estado tão crítico que não carecia de levar para casa. Ainda assim formavam uma quadrilha. Maria amava Antônio, que era pobre, e namorava Pedro, que era rico. Azar o do Antônio! Até aí nenhuma novidade. Acontece que João se arrepiava todo quando via os olhares que Antônio e Maria trocavam depois da missa das 10, lá na pracinha. Não acreditava nessa coisa de amor, ou melhor, acreditava piamente no amor ao dinheiro. Daí, pegava pesado no pé da Maria. Grana trazia respeito, conforto, prosperidade, e o negócio era trazer Maria na rédea curta, antes que ela arrastasse de vez a asa por aquele traste do Antônio e aparecesse prenha qualquer dia desses. Aí, o projeto de casar Maria com Pedro ia de uma vez por todas por água abaixo.
Aliás, andava meio irritado com Pedro, que ia deixando meio bambo aquele teretetê com a Maria. No seu entender, homem que é homem parte direto pros finalmentes, mas tinha de ser paciente com ele. Pedro era fazendeiro rico, é certo, mas um tanto pra logo. Corria um boato na cidade que um coice de burro na cabeça prejudicara o plissado das suas ideias; ficou assim meio troncho, carecia de um empurrãozinho às vezes, de um adjutório pra tomar umas atitudes, e no que dependesse da mão enérgica do João, o casório não ia demorar.
Maria encaminhada na vida, dinheiro no bolso e ele pegando as rebarbas. Era o rumo que as coisas iam tomar.
E tomaram. Dias das bodas chegando. Muita preparação. Correria. A cidade modorrenta criou vida. Maria saia do caritó e enricava de vez. Mas Maria não pensava assim. E desde quando devia pensar? A vida toda foi pra dizer amém ao pai. Não só ela, todo mundo. Pedro era um deles. Nem sabia se Pedro era capaz de fazer um filho sem ajuda de João. E Antônio? Tinha de admitir. Antônio era bom nos entretantos, mas nos finalmentes carecia de coragem. Daquele mato nunca que iria sair coelho. E então?
E a coisa ia nessa marcha. A cidade inteira apostando. Maria enfrentaria o pai? D. Finoca, a costureira apostava em Antônio, bonito e charmoso. D. Custódia, mulher do sacristão, ao contrário, acreditava que o dinheiro, com ou sem a pasmaceira do Pedro, falaria mais alto.
Os dias foram passando. Vigilancia ferrenha do João. Maria ia acompanhando o andar da carruagem, visitava a costureira, doceiras, bordadeiras. Preparativos em marcha, de vento em popa. E por que não? Maria sempre tinha sido a obediência personificada.
Aí chega o grande dia. Todo mundo enfatiotado. Noivo na porta da igreja. João estourando de orgulho com a festança. E nem sinal de Antônio. Tudo perfeito.
E toca o povo a esperar. O carro da noiva não chegava. Maria ficou se aprontando com algumas amigas. Mulher é assim mesmo. A horas passavam. Angústia. Todo mundo frenético: Maria sumiu!!
A noite já ia alta quando descobriram que o Zé da padaria também tinha sumido. A compreensão veio vindo e se instalando na moita, naqueles cérebros embotados de cidadezinha modorrenta: entre o Antônio e o Pedro havia o Zé.
Até que fazia sentido. Maria buscava pão de manhã, de tarde e de noite. 5 minutos de café. Prazo suficiente pra rolar um clima. E por que não?
Não foi o Antonio, não foi o Pedro, não foi o mordomo. Foi o Zé. Elementar, meu caro Watson!!!








Maria Solange Amado Ladeira              solangesolsal@hotmail.com         16/06/15
PIANO  PIANO
Fico eu aqui pensando com meus botões. Ou melhor, estava eu aqui matutando com meu fecho éclair, que botão sem casa não funciona, e como os recursos para o “Minha casa, minha vida” sumiram do mapa, temos que ser criativos. Talvez seja melhor matutar com um velcro, só pra ficar de bem com a era digital. Não importa, estou aqui elocubrando sobre como a vida é que nem kinder ôvo, sempre trazendo surpresinhas. Nem sempre fabulosas, mas que sempre obrigam a gente a se inquietar: posso abrir esse pacote? O que traz? Até quando? Até onde? Papo inútil, mas inevitável. O vício de se ser humano. Fazer o que?
Ontem eu botei reparo na cachorrada que a minha amiga tem em casa. Barulhentos, agitados no que parecia uma angustia existencial quase humana. Quando eu já pensava em chamar a SWAT pra botar ordem no pedaço, eis que chega a cavalaria americana na pessoa de um cara pequeno, franzino, que tem uma profissão interessante: “passeador de cachorro”. Um sumiço de uma hora e os bichos chegaram tão doces e calminhos, que estou pensando seriamente em contratar um passeador de mim.
Talvez seja essa a solução para os pruridos de inquietação que andam me sacudindo. Às vezes eles chegam como um terremoto grau 8 na escala Richter, que me fazem subir pelas paredes dessa vidinha mais ou menos normal que eu levo. Às vezes, eles se aproximam como um bradisismo, bem sensual, bem tremendinho, comendo pelas beiradinhas, como um bicho de pé invasivo, meio prazer, meio dor. Um moto contínuo de estímulos que cutucam e cutucam e não dão trégua. Vale qualquer coisa pra me livrar do incômodo; até um passeador de cachorro. Pelo menos, ele deve saber algum segredo de como acalmar espíritos conturbados.
Seja como for, não obstante eu viver às voltas com o fato de ser apenas uma mulher e não uma cachorra, de um modo geral, consigo administrar, tanto terremotos quanto bradisismos ocasionais. A coisa aperta mesmo quando isso acontece com os chamados seres inanimados. É onde chegamos. Ao piano. Eu tinha um piano. Ou melhor, o piano me tinha, porque ele já estava lá quando eu nasci. E esta é a história de um triste e angustiado fim, sem mecanismos de defesa ou um eventual  passeador de cachorros pra dar um refresco. Posso resumir assim:
Era um vez um piano, cujo, vivia num apartamento de tamanho médio, numa família de tamanho médio, de classe média, numa cidade de tamanho médio. Tudo medíocre, como já notaram. Acontece que o piano era inglês, aristocrático e acima de tudo, tinha muito talento, um belo som e sempre respondeu aos estímulos de dedos sensíveis, divinamente mancomunados com gênios como Beethoven, Mozart, Chopin. Nessa toada, nosso piano foi se acostumando a um tratamento cinco estrelas, mãos e dedos top de linha. Um tratamento refinado, seus dentes só degustavam alimentos de primeira. Champagne e paté de foie gras, com direito a biquinho e tudo.
Até que essa vida kinder ôvo veio com o tsunami surpresa e avacalhou essa trajetória de vitórias e bom gosto. As mãos que o acariciavam desapareceram subitamente. Nunca mais Bach, Beethoven, Mozart. Ocasionalmente o “bife” mal tocado, um batuque aleatório com mãos sujas, até o cachorro da família tirava uma casquinha naqueles dentes brancos/pretos e impecáveis. O tempo foi passando, os dentes maltratados foram caindo e sem a providencia de um implante, o piano ficou banguela. Sua voz emudeceu, ou melhor, perdeu a força; começou a atravessar e ser atropelado nas suas harmonias e eterna desafinações.  E eis que um dia um carroceiro passou por alí e a família, ou o que restava da família, que não sabia o que fazer com um piano desdentado e sujo, doou aquele elefante branco, não importando se sua ascendência pertencia à mais alta nobreza britânica. Triste e melancólico fim. O mesmo para objetos animados e inanimados.
É alarmante, mas é isto: se depois dessa minha experiência continuarem pensando que “piano piano si va lontano”. O buraco é mais embaixo. A moral dessa história mostra que “piano piano, de vai mesmo é ao cemitério”.




Maria Solange Amado Ladeira                        solangesolsal@hotmail.com

quinta-feira, 28 de maio de 2015

"Meu corpo se enche de emoções dementes,
como uma taça sob torneiras intermitentes.
 Se não fosse a poesia,

para onde ela transbordaria?"

quinta-feira, 21 de maio de 2015

E eu, de novo, tentando fazer em versos

Adriano Dias
E eu, de novo, tentando fazer em versos
os pedaços dispersos
que apreendo de quem é você,
cuja beleza,
poesia viva,
quero tornar letra, subjetiva,
mas a arapuca da palavra, sem escolha,
sabota meu projeto
tão logo toco a tinta na folha
e tudo que era você por completo,
e me dominava ainda agorinha,
acaba emoção de esteta,
e mais,
enquanto o texto por si, caminha,
nada perto do que era antes,
eu, apaixonado pelos termos,
melodia das vogais,
pelo ritmo das consoantes,
mergulho no inebriante precipício que só vemos
no exercício da criação da arte.

E esse novo fracasso,
o presente poema que faço
e as delícias de compô-lo,
muito mais que consolo,
proporciona o mesmo nível epifânico de deleite
que tenho ao ver seu rosto, corpo inteiro,
ouvir o canto, sentir seu cheiro.

Nem espero que entenda, tampouco que aceite,
mas saiba que ainda mais lhe devo
na contabilidade dos prazeres que me desperta!
Agora, além de sua realidade concreta,
o gozo de contemplar seu relevo,
soma-se a transcendência a que me elevo,
quando aqui me faço poeta!


Adriano Dias

quarta-feira, 20 de maio de 2015

De bolas e deuses gregos
 Solange Amado
Foi mais ou menos assim. Nunca entendi nadica de nada de futebol. Nunca saquei que aquele cara de preto correndo pra lá e pra cá no meio do campo, aquele incompetente que nunca alcançava a bola, era o juiz. E eu nem desconfiava que a função dele era essa mesma, fugir da bola, mas estar sempre de olho nela e no que os jogadores faziam com ela. Uma espécie assim de agente secreto, ou um detetive encarregado de flagrantes de infidelidade. Pisou na bola, ele apita, deu um bicudo no companheiro, tá fora do jogo. De cartão vermelho eu sacava. Tinha acabado de dar um de presente a um, eu diria, metrossexual, que tinha tido a gentileza de, por sua vez, me presentear com um belo par de chifres. Falta desleal.
Depois daquela rasteira na minha autoestima, não tinha sentido eu perder a chance de agarrar o deus grego que me apareceu assim de repente, depois de um largo tempo de secura. Era a oportunidade de sair do buraco. Só não contava com o fato de que aquela figura mitológica tinha uma estranha obsessão: ele dormia, comia e vivia futebol desde que saltou fora do ventre materno. E desconfio que só se interessava por mulher porque o lay out desta, tinha redondezas semelhantes às de uma bola.
E se um bem maior se alevantava, eu ia virar praticamente um mix de Cristiano Ronaldo com Galvão Bueno. Zagueiro, impedimento, falta, pênalti, atacante, linha de fundo, corner, passaram a fazer parte do meu vocabulário diário. Queimei pestanas numa pós graduação no google. Xingar a mãe do juiz também fazia parte do meu novo aprendizado, não obstante fosse difícil detectar a hora certa de lançar os impropérios, porque eu nunca sabia contra quem ou a favor de quem o senhor de preto estrilava seu apito.
Ao invés do couro macio das poltronas de cinemas, teatros e restaurantes, o cimento duro das arquibancadas passou a acariciar meu traseiro pelo menos, uma vez por semana.
A princípio, aqueles 22 marmanjos correndo atrás de uma bolinha por longos 90 minutos era algo um tanto monótono, pra não dizer meio ridículo e a histeria deslavada de um estádio inteiro, escapava à minha modesta compreensão.
O tempo foi passando, meu deus grego só tinha olhos para aquelas criaturas atléticas com sua bolinha solitária e eu só tinha olhos para ele. Nos intervalos eu agitava bandeiras e tentava agitar seu interesse pela minha pessoa. Infelizmente, nunca logrei sacudir as redes do seu tesão com uma cabeçada certeira, uma bicicleta ou uma folha seca, ou outras posições do kama sutra futebolístico. Minhas tentativas sempre batiam na trave.
O tempo foi passando e me cansei de ser atriz coadjuvante naquela ópera esportiva. Cansei de só encontrá-lo nas reentrâncias. Decidi que meu deus grego não estava com aquela bola toda. O verdadeiro espetáculo estava lá embaixo no gramado. E cada vez meus olhos se voltavam mais pra lá.
Só ao botar pra escanteio e driblar a criatura que se colocava entre mim e  o gramado é que entendi a emoção de um gol de placa e quão libertador é o chute certeiro nas redes da independência. Desde então, não importa quem ganha ou quem perde. Não dependo do resultado do jogo em si. Isso são circunstancias. No momento libertador do gol, não importam subordinação e reticências.
Hoje, confesso que mantenho os deuses gregos bem quietinhos dentro da mitologia. Coloco meu traseiro no cimento frio e fico de olho em 22 deuses de carne e osso. Mantenho sob controle a bolinha, vigio de perto o homem de preto. E se duvidar dou um carrinho em quem barrar meu caminho até o âmago do meu desejo.



Maria Solange Amado Ladeira                solangesolsal@hotmail.com       20/05/14
CORAÇÃO MOLE
Solange Amado
Foi  assim, doutor. Quase que eu desisti, mas graças a Deus tive forças pra cumprir minha palavra até o fim. Não que fosse novidade pra mim. Já abotoei o paletó de muito cabra macho por esse sertão afora. Trabalho limpo e garantido. E ninguém pode dizer que eu exploro. A quantia depende do trabalho que dá apagar o sujeito, e da distância. Quanto mais longe, mais dificultoso o nosso comparecimento, e mais caro. Já percorri todo esse mundaréu de sertão cumprindo a minha obrigação, porque é isso, doutor, quando dou minha palavra, é obrigação, questão de honra. Não carece de botar nada no papel. Só o apalavrado mesmo. Se um dia o senhor tiver precisão de mandar um desafeto dessa para melhor, pode contar com meus serviços. Ainda mais pro senhor, que é homem de respeito.
O que é isso, doutor? Remorso não tem lugar nessa vida. É o destino, doutor. O que tem de ser feito, tem de ser feito. Acontece que sou eu que faço. Me encarrego do serviço, e o camarada fica livre do problema. Só isso. Todo mundo vai empacotar um dia. E se não é de morte morrida, é de morte matada.
É isso. De menos com essa dona. Confesso que fiquei meio balançado, doutor. Ninguem nunca me pediu pra ser apagado. A encomenda era ela mesma, entende? De princípio eu não queria entrar nessa fria. Só podia ser fria. Coisa de gente maluca. Mas ela me convenceu. Eu nunca bebo com os clientes, mas concedi esse benefício porque ela estava disposta a me pagar muito bem por uma merreca de serviço, bem moleza, sem nadica de nada de esforço. Eu não ia mandar pro bispo uma mamata dessas, num é doutor? Era pegar ou largar. Meu erro foi ter demorado tanto. Já falei, não bebo com os clientes, porém, ela carecia de encorajamento pra mais e eu fui ficando. Podia ter puxado o meu berro e resolvido de vez a parada. Mas a idade vai fazendo o coração mole. Sou um cabra duro. Não dou moleza fácil. Mas vacilei e foi aí que me pegaram. Dei bobeira. Nessa minha profissão não tem lugar para arrastar asa pra mulher nenhuma. E pode-se dizer que foi o sucedido. Tantos anos de profissão e nunca fui em cana. Já fiz muito trabalho difícil pra gente importante e não sofri nenhum vacilo. Foi só entrar mulher no meio e a coisa desandou.
Coisa mais simples. Ela queria morrer, não? Pagou direitinho. Era pegar a garrucha e mandar bala. Rápido e limpo. E dar o fora. Mas se é mulher, a coisa vira encrenca. Ela queria encher a cara primeiro e jogar conversa fora, essa choradeira de mulher abandonada, que sempre pega o homem e gruda que nem carrapato. Foi isso, doutor delegado. Só fiz o meu serviço.
Mesmo que o senhor não acredite, sou um homem de respeito, de palavra. Eu mato, mas não minto.
E vou dizer uma coisa, doutor. Se quiser o conselho de um matador experiente, com mulher é cautela redobrada. Matar primeiro e conversar depois.

Maria Solange Amado Ladeira                            solangesolsal@hotmail.com

29/10/13
COMPASSO BINÁRIO
Solange Amado
Um azul intenso, brilhante como um espelho refletindo o sol. Um mar de lembranças. Toda a água escapando dos meus olhos, salgada, ardente, picante, molhando o mar e um mundo de imagens agridoces. Lembranças que acalento num ir e vir de ondas modorrentas como aquele final de tarde, mantendo em banho maria a minha melancolia. Aquela onda que vinha, tocava meus pés com a mesma leveza de uma mulher criança, uma doce e incansável guerreira, vigiando atentamente a nossa infância e nos permitindo cortar o D da palavra deficiência, transformando-a pelo resto de nossas vidas, na eficiência  de tornar possível a alegria, ingenuidade e leveza de pés descalços, água fria e segurança de um Procon humano. Menina eterna, voltava agora, junto com aquela onda para um beijo esparramado de espuma, naquele final do dia. Mal tive tempo de lhe dizer baixinho “obrigada” e lá ia ela de volta para o alto mar. Nem bem aquela onda de emoções abandonava as minhas retinas, outra o trazia no seu bojo: meu primeiro amor, aquele do primeiro beijo, do primeiro espanto, do primeiro pranto de dor, a primeira bendita sacanagem, que nos faz vislumbrar um mundo de prazer até então desconhecido do meu universo de pirralha. Meu grande e vasto amigo Gabriel foi meu primeiro esqueleto no armário; seguiram-se outros bem mais amargos. Nenhum tão gentil e com uma esqueletice tão inocente. Meu amigo Gabriel que me dedicou um capítulo no livro da sua vida, e se foi tão cedo, volta por um instante e me agarra os pés num beijo rápido, suave e salgado. Um a um, num vai e vem incesssante, o mar, como a vida, generoso e avaro, me traz e me leva meus fantasmas em frações de segundo: minha babá, tão querida e nefasta, que cheia de candura me embalava com um carinho regado a histórias de terror, infernizando o meu sono com pesadelos numa frequência monótona e contínua, como as ondas que vão e vêm nesse fim de tarde. Era bom. Era ruim. Mas não somos todos assim, paradoxais? Seja lá o que for, não houve tempo para despedidas. O mar levou a doçura, o terror, os pesadelos, sem me dar tempo de entender esse odiamor paradoxal de minha infância. Deito-me na areia. A próxima onda mexe nos meus cabelos, reconheço os dedos da minha avó ao me fazer dormir. Beijo aquela água salgada, lambo minhas recordações com voluptuosidade. Não sei quando nos reencontraremos. Foi só um momento fugaz em clave de sol. Momento em que o grande maestro do universo regeu o côro das minhas recordações no compasso binário do mar.
                                Maria Solange Amado Ladeira – solangesolsal@hotmail.com

                                11/09/12
CARECE SONHAR
 Solange Amado 
Nabokov sonhava com a Lolita e dormia com a Vera, eu durmo com meu travesseiro e sonho com o George Clooney. A vida é uma mixórdia. A realidade é dura. Por essas e outras é que eu recomendo o sonho. Não que eu recomende o mundo da lua como rota principal na escalada desse Himalaia espinhoso que é a vida. Não carece tanto. Mesmo porque, quando a gente sobe assim tão alto, periga não conseguir descer, e o máximo que podemos atingir daí em diante, é um Hospital Psiquiátrico. Então, já perceberam que é importante assegurar o caminho de volta. Longe de mim querer meter alguém numa bananosa com esses conselhos duvidosos. Tenho ótimas intenções.
E então, esclarecido o primeiro ponto, continuo afirmando que sonhar é imprescindível. Não me perguntem por que. Careço de um número maior de neurônios pra dispor de uma explicação científica capaz de satisfazê-los. Digamos que sonhar é tirar férias da realidade meia boca que nos rodeia.
Eu por mim, vez em quando arrumo as malas, me despeço das minhas prendas domésticas, das miudezas do dia a dia, dos meninos, do cachorro, e vou acampar no glamour de Hollywood. Lá, mesmo com minhas duas polegadas a mais, dou o maior ibope com o George. Abro caminho entre os paparazzi, distribuo autógrafos, piso na calçada da fama com o ar blasé próprio das beldades, e quando fico cansada de tanta bajulação, volto para o meu anonimato. É simples. Sonhar não dá muito trabalho.
Às vezes, meu lado transcendental leva a melhor e procuro pastos mais verdejantes para alimentar a minha alma. Já fui acampar com monges tibetanos: silencio e paz como contraponto a essa loucura poluída do mundo real. Não durou muito, é verdade. Não me adaptei ao jejum, à tigelinha de arroz e ao sino da madrugada, mas não é um sonho de se jogar fora.
A grande sacada é não fazer do sonho um pesadelo. Já vi muito sonho atingir o Cabo das Tormentas e naufragar. Não deixa de ser uma ameaça. O segredo é não deixar o seu desejo ultrapassar a barreira do som. Pisar no freio. Esse é o segredo. Se frequentemente tropeçamos na realidade e podemos deslizar no sonho, não significa que a gente deva ir com muita sede ao pote. Aprendi isso a duras penas.
Minha mãe sonhava alto. Quando a coisa ficava feia, e a coisa frequentemente ficava feia numa casa com 6 crianças, trabalheira, cachorro, gato, papagaio, as labutas de professora e dinheiro curto, ela escapava para os livros; quando os livros não davam conta, ela malhava o piano. Desconfio que esse recurso também tenha ficado pequeno. Então, o jeito era sonhar, e se o tamanho do sonho não dava pra aguentar o tranco, o jeito era sonhar um pouco mais alto – tudo isso e o céu também – sempre um pouco mais alto. Com o olhar perdido desejava o céu. Até que alçou vôo.
Ainda tive esperança de que ela achasse o caminho de volta. Mas é aí que mora o perigo. Não deu.
Acho que foi um sonho bom. O pesadelo ficou do lado de cá. Azar o nosso!



Maria Solange Amado Ladeira      solangesolsal@hotmail.com       25/03/2014
AMOR DE OUTONO
Solange Amado
Foi o que ele declarou: “Na curva perigosa dos cinqüenta derrapei nesse amor”. Pra Carlos Drumond de Andrade foi o bastante, acho. Começou e acabou por aí, na curva perigosa dos cinqüenta. Pra mim, foi um pouco mais adiante. E não foi uma derrapada, o que me permitiria, mais cedo ou mais tarde, fincar pé e me firmar na minha dignidade. Foi mais uma trombada. Um caminhão fenemê pela frente, e numa curva fatal: a dos sessenta. Ainda não me levantei e nem quero. Pra que?
Meu fusquinha antediluviano vinha pela estrada cochilando por tantos anos que nem viu a curva, nem reparou nos sinais da estrada, nem atentou para o que vinha pela frente, tão à vontade eu estava no volante familiar das minhas emoções.
É isso. Quando os ventos da sexygenariedade me fustigaram, peguei firme as rédeas do meu coração. Nem pensar em sair da estrada. Nada de descompasso. Se CDA, apesar de todos os cuidados, foi derrapar lá atrás na curva dos cinqüenta, era preciso botar as barbas de molho, que nos sessenta o perigo é redobrado. Não que a idade torne a paixão menos ou mais ridícula. Toda paixão é de uma babaquice atroz.  O problema, se querem saber, é a turbulência que sacoleja a vida e nos deixa assim meio que cegos num tiroteio, sem direção. O ridículo não preocupa. É uma palavra que não existe no dicionário do que estão bêbados de amor. E em sendo assim, eu não me importo nem um pouco em subir em cima da mesa e fazer um striptease de emoções, no bar da meia idade, ou de qualquer idade. O medo é descer daí, quando o tempo pra passar a ressaca e recuperar a dignidade se esvai muito depressa.
Pensando bem, isso diz respeito ao futuro e não adianta elocubrar quando só o que eu tenho é o hoje. Por enquanto, só quero me equilibrar nessa incerteza, me lambuzar e abusar do prazer de ser amada e mais ainda: usufruir do presente, desse presente que me foi dado no outono da vida.
Tô atravessando fora da faixa, da faixa etária se insistem, e se vou ser atropelada ou não, isso interessa pouco, porque não há escolha. Se a vida não tem repeteco, é viver e viver.
Cair de cima da mesa de uma paixonite no outono da vida é problemático, como já alertou um amigo. Quedas são perigosas para os mais velhos, a recuperação é lenta e dolorosa e sempre deixa seqüelas. Tá, mas eu vou em frente. Na contramão. Mais seqüelas que a vida já me deixou? Será só mais uma cicatriz ridícula antes que a cortina se feche e o espetáculo termine. A rapa do tacho que eu lambo lubricamente até a última gota. Talvez assim, eu possa exorcizar um medo,  que Mercedes Sosa parecia compartilhar comigo, quando lançava em sua canção, o grito: “que la reseca muerte no me encuentre, vacia e sola sin haber hecho lo suficiente”.  Que a morte árida não me encontre, vazia e só, sem haver feito o suficiente. Deve bastar.



Maria Solange Amado Ladeira     solangesolsal@hotmail.com


ACHTUNG! VERBOTEN!
 Solange Amado 
Aeroporto é como parto, diz um amigo meu.  A gente tem de esquecer da peleja das malas, do cansaço,  dos corredores infinitos, dos aviões apertados, pra poder tentar de novo. Uma vez esquecidas as dores do aeroporto, lá vamos  nós de mala e cuia pagar uns micos básicos pelo mundo afora. Encontrei uma amiga, na Suiça, fazendo movimentos vigorosos de natação, na frente de uma vendedora pra explicar que queria um relógio à prova d’água. Em Praga, após ter pedido uma informação em inglês a um guarda, meu amigo e eu ouvimos uma longa explicação em tcheco sobre como encontrar determinada rua. Tentamos inutilmente deter o caudal de palavras ininteligíveis, até que nossas bocas foram tomando o formato de um OOOOOO um tanto imbecil e explodimos os três numa gargalhada incontida. Em Budapest, tentávamos bravamente decifrar um cardápio em húngaro, maldizendo os hieróglifos à nossa frente e o garçon, que se mantinha impassível como um dois de paus, alheio ao nosso drama, até que ele soltou: “podem falar em português. Eu sou de Lisboa”. Foi uma festa, um alívio e um contrangimento. É verdade. Tudo isso faz parte do cardápio do viajante, tão certo como o prazer, a dor e a surpresa de encarar o diferente. O único detalhe desagradável é quando você se torna o centro do “imbròglio”. Aí, a coisa aperta.
Pra falar a verdade, nunca antes me deparei com o verboten radical do alemão. Sou neófita em rigidez de regras e ordens, habitante que sou do “jeitinho brasileiro”. Assim, nossa turminha, com o otimismo próprio dos viajandantes, comprou ingresso para percorrer 18 museus, embora eu ache que, em matéria de museu, três é uma quantidade pra lá de suficiente; mesmo porque, sempre tenho medo de que me confundam com um fóssil e não me deixem sair. Escolhemos primeiro o Museu egípcio. Na véspera, uma senhora paulista permaneceu de pé na frente do busto de Nefertiti em profunda e emocionada reverência. Vai daí que ficou todo mundo doido pra descobrir o feitiço da rainha egípcia. Lá fora, a temperatura era de 3 graus. Nos armamos de casacos, cachecóis, toucas, máquinas fotográficas, óculos, fones de ouvido, uma parafernália de dar dó, e partimos pra enfrentar o armagedon egípcio. E eis que, logo de cara, a eficiência alemã nos atropela: Nein! Nein! Nein! Fomos expoliados de toda a carga de agasalhos, máquinas e adereços; uma alemã corpulenta, com cara de poucos amigos junta toda a tralha e nos entrega uma plaquinha com um número; fazemos uma fila (alemão faz fila pra tudo) e marchamos museu adentro, quer dizer, os outros marcharam, porque eu... Nein! Nein! Nein! Esqueci de tirar minha bolsinha atravessada no ombro. Com ela não haveria Nefertiti. Tentei pegar a plaquinha salvadora com meu amigo, mas, ele já estava umas duas salas adiante. Nein! Nein! Nein! Não posso penetrar no museu com aquele objeto altamente suspeito. O jeito foi voltar à sala de strip tease.  Um casal que estava hospedado no mesmo hotel, gentilmente permitiu que eu colocasse minha bolsa junto com a parafernália deles, no mesmo cabide. Eles, presumivelmente,  também não iriam demorar e eu sabia qual era o cabide. Solucionado o impasse, pude ver os segredos egípcios e verificar devidamente a perfeição da Nefertiti, . Meia hora de caminhada e resolvemos pegar nossos breguetes; tínhamos pressa em partir para o segundo museu. Foi aí que a coisa azedou. Meu amigo entregou a plaquinha, a fraulein a recebeu com cara de poucos amigos e resgatamos nossas roupas, mas... cadê minha bolsa? Estava no cabide do outro casal. Explicamos o fato em português, espanhol, e inglês, mas, a mulher permanecia com cara de dromedário cansado, apontava a plaquinha e dizia: “Nein! Nein! Nein! Impasse formado. Encontramos uma brasileira que traduziu o impasse para o alemão. Inútil. A mulher apontava a plaquinha e repetia Nein! Nein! Nein! Estávamos diante do muro de Berlim. A coordenadora do Museu é chamada, pergunto a ela se posso entrar no compartimento dos agasalhos para procurar minha bolsa. Nein! Nein! Nein! Regras são regras. Duas horas de negociações e o jeitinho brasileiro consegue uma pequena vitória, entro ladeada por um guarda e pela coordenadora, e lá está minha bolsa, e como na música do Roberto Carlos, “meu cachorro me sorri latindo”, minha bolsa me espera sorrindo. Ufa! Alívio! Estendo rápido a mão pra ela, mas uma bota nazista quase arranca meu dedinho do pé. Nein! Nein! Nein!  A bolsa pertence ao casal que possui a plaquinha. Digo à coordenadora que pode abrir, pegar meus documentos e comparar com o passaporte que trago na cintura. Nein! Nein! Nein! Ninguém pode abrir antes do retorno do casal e da plaquinha. Entro em desespero. Quem pode abrir a bolsa? Angela Merckel, o Santo Padre? Hitler trazido às pressas do bunker ali perto?  Dir-se-ia que é um teatro do absurdo, parece até Becket com sua “Esperando Godot”. Só que eu não estava esperando Godot, estava esperando minha bolsa, a um braço de distância e inalcançável. Já estava cansada desse non sense. Lá fora, meu amigo fazia um discurso pra fraulein mal humorada: “Você vai ver, sua nazista, vou lhe rogar uma praga, quando a gente sair daqui, você vai trocar todas essas plaquinhas e isso aqui vai virar o inferno de Dante”. Inútil perder o latim. Ninguém entendia nada e a mulher olhava pra ele impassível, com o mesmo ar de dromedário cansado. Mais uma hora se passou antes que o casal fanático por museus, finalmente aparecesse e todos corressem ao seu encontro. A libertação! Ah! Mas, se estão pensando que foi facinho resolver aquele impasse agora que a plaquinha salvadora aparecera? Nein! Nein! Nein! Regras são regras no mundo alemão. Meus amigos tiveram de se enfiar no final de uma fila quilométrica que vagarosamente recuperava seus haveres. Só então, resgatei minha bolsa e o “imbróglio” se desfez.
Agora vocês me perguntam, arriscarei eu, algum dia, a enfrentar mais uma vez a burrocracia alemã? Pode ser, mas, ao museu de Nefertiti? NEIN! NEIN! NEIN!

Maria Solange Amado Ladeira  solangesolsal@hotmail.com

23/10/2012