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sexta-feira, 22 de março de 2024

 Escrevo,

 "O fato central da minha vida foi a existência das palavras e a possibilidade de tecê-las em poesia." Jorge Luis Borges

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

JORGE LUÍS BORGES - 1964

Já não serei feliz. Talvez não importe.
Há tantas outras coisas no mundo;
um instante qualquer é mais profundo
e diverso que o mar. A vida é curta

e ainda que as horas sejam tão longas, uma
escura maravilha nos ronda,
a morte, esse outro mar, essa outra flecha
que nos livra do sol e da lua
e do amor. A sorte que me deste
e me tiraste deve ser apagada;
o que era tudo tem que ser nada.

Só me resta o gozo de estar triste
esse inútil costume que me inclina
ao sul, a certa porta, a certa esquina.


sexta-feira, 27 de março de 2015

JORGE LUIZ BORGES, em seu Ensaio Autobiográfico:
“Suponho que já escrevi meus melhores livros. Isso me dá uma espécie de tranqüila satisfação e serenidade. No entanto, não acho que tenha escrito tudo. De algum modo, sinto a juventude mais próxima de mim hoje do que quando eu era um homem jovem. Não considero mais a felicidade inatingível, como eu acreditava tempos atrás. Quanto ao fracasso e à fama, parecem-me totalmente irrelevantes e nem me preocupam. Agora, o que eu procuro é a paz, o prazer do pensamento e da amizade e, ainda que pareça demasiado ambicioso, a sensação de amar e de ser amado.”

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

penso...


Jorge Luis Borges 
Penso que as Palavras essenciais que me expressam se encontram nessas folhas que nem sabem quem sou.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

SERENA


Henriqueta Lisboa
Essa ternura grave
que me ensina a sofrer
em silêncio, na suavi-
dade do entardecer,
menos que pluma de ave
pesa sobre meu ser.

E só assim, na levi-
tação da hora alta e fria,
porque a noite me leve,
sorvo, pura, a alegria,
que outrora, por mais breve,
de emoção me feria.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Sobrevivente


Jmal
Atualmente navego pelo meu lado agitado,
Permitindo meu sentido revolto,
Onde tudo é tempestade indomável,
Que jamais pondera,
Anteparando os perigos alucinados pelos ensejos,
Como forma única de vida e sobrevivência...

terça-feira, 5 de novembro de 2013

uma frase do poeta Jorge Luís Borges

"Eu acho que os jovens são facilmente infelizes porque, é claro, as
  paixões são mais fortes e, entre as paixões, está o desespero, não é?
 "


sexta-feira, 17 de maio de 2013

Jorge Luiz Borges


Buenos Aires
Penso que as Palavras essenciais que me expressam se encontram nessas folhas que nem sabem quem sou.

Mão velha de guerra
segue traçando seus versos
para o esquecimento.

Uma oração



Jorge Luis Borges

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

Sou


Jorge Luiz Borges
Sou

Sou o que sabe não ser menos vão
Que o vão observador que frente ao mudo
Vidro do espelho segue o mais agudo
Reflexo ou o corpo do irmão.
Sou, tácitos amigos, o que sabe
Que a única vingança ou o perdão
É o esquecimento. Um deus quis dar então
Ao ódio humano essa curiosa chave.
Sou o que, apesar de tão ilustres modos
De errar, não decifrou o labirinto
Singular e plural, árduo e distinto,
Do tempo, que é de um só e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada.
Jorge Luis Borges

Arte & Vida

Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria.
Jorge Luis Borges  

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (Argentina,Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Suíça, Genebra, 14 de junho de 1986)
escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino.
O grande escritor ficou cego, mas enxergava o mundo pelas palavras. Uma doença genética e progressiva foi tirando-lhe a visão e isso o incentivava a ler e a ver tudo em menos tempo.
Foi diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires.

Dominava a língua inglesa e também o francês, por ter sido educado em Genebra, Suíça. Sua obra expressa universalismo, variedade e excentricidade.
Aprendeu alemão sozinho e gostava de ler o filósofo Shopenhauer.
Segundo escritores e críticos contemporâneos era capaz de colocar um universo dentro da caixa de fósforo pela simplicidade e objetividade como escrevia em seus textos.

“Não criei personagens. Tudo o que escrevo é autobiográfico. Porém, não expresso minhas emoções diretamente, mas por meio de fábulas e símbolos. Nunca fiz confissões. Mas cada página que escrevi teve origem em minha emoção”(Jorge Luís Borges)

O menino Borges decidiu a certa altura ser escritor. Aos oito anos de idade, escreveu seu primeiro conto: La visera fatal.
(...)
Traduziu aos nove anos O Príncipe Feliz, de Oscar Wilde, que foi publicado no jornal “El País”, de Buenos Aires.
(...)
Quase oitenta anos mais tarde, mesmo cego, velho, encurvado sob o peso da idade e sob o signo da descrença, ainda prosseguia ditando palavras.

Falava da solidão como de uma aliada às avessas de sua criação, espécie de segunda companheira, sombra sempre em volta dos livros acumulados sobre a mesa, empilhados nas estantes: “Passo boa parte do meu tempo só, conheço poucas pessoas. Então fico planejando poemas, narrações..."

A consagração de Borges só veio em 1935, depois da publicação de seu primeiro livro de contos História Universal da Infância.
O universo fantástico de suas narrativas viria a ser inaugurado mais tarde, a partir do volume Ficções, alcançando o ápice em O Aleph. Para Borges, esses dois livros eram sua bibliografia.

"Na infância pratiquei com fervor a adoração ao tigre; não o tigre cor de pêssego dos camalotes do Paraná e da confusão amazônica, mas o tigre rajado, asiático, real, que só pode ser enfrentado pelos homens de guerra, encastelados sobre um elefante. Costumava demorar-me infindavelmente diante de uma das jaulas no Zoológico; apreciava as vastas enciclopédias e os livros de história natural pelo esplendor dos seus tigres. (Lembro-me ainda dessas figuras: eu que não posso recordar sem horror o rosto ou sorriso de uma mulher). A infância passou, caducaram os tigres, e a paixão por eles, mas eles ainda permanecem em meus sonhos. Nessa lembrança submersa ou caótica, continuam a prevalecer, e assim: adormecido, um sonho qualquer distrai-me e eu sei de imediato que é um sonho. Costumo então pensar: Este é um sonho, uma pura diversão de minha vontade e, já que tenho um poder ilimitado, vou produzir um tigre."
"Oh incompetência! Meus sonhos nunca sabem engendrar a apetecida fera. Aparece o tigre, isso sim, mas dissecado e débil, ou com impuras variações de forma, ou bastante fugaz, ou tirante a cão e a pássaro." (Jorge Luís Borges)


HINO

Esta manhã
há no ar a incrível fragrância
das rosas do Paraíso.
Nas margens do Eufrates
Adão descobre a frescura da água.
Uma chuva de ouro cai do céu;
é o amor de Zeus.
Salta do mar um peixe
e um homem de Arigento recordará
ter sido esse peixe.

Na caverna cujo nome será Altamira
uma mão sem cara traça a curva
de um lombo de bisonte.
A lenta mão de Virgílio acaricia
a seda que trouxeram
do reino do Imperador Amarelo
as caravanas e as naves.

O primeiro rouxinol canta na Hungria.
Jesus vê na moeda o perfil de César.
Pitágoras revela a seus gregos
que a forma do tempo é a do círculo.
Numa ilha do Oceano
os cães de prata perseguem os cervos
de outro.

Numa bigorna forjam a espada
que será fiel a Sigurd.
Whitman canta em Manhattan.
Homero nasce em sete cidades.
Uma donzela acaba de aprisionar
o unicórnio branco.
Todo o passado volta como uma onda
e essas antigas coisas recorrem
porque a mulher te beijou.
   
(Jorge Luís Borges)

O escritor argentino morreu como um dos monstros sagrados da literatura universal.
Deixou uma obra incomparável em língua espanhola, sobretudo pela capacidade inventiva e pelo poder de suas metáforas de transcendência filosófica.

Nos seus últimos anos de vida, viajou incansavelmente pelo mundo com a esposa, Maria Kodama, ex-aluna e secretária particular. Passava no máximo dois ou três dias em cada lugar, não dando muita importância nem para a cegueira nem para a velhice.



Mas houve um tempo de tamanha angústia em que ansiara pela morte, e com tal sofreguidão que a certa altura afirmou que morrer para ele era a última esperança.

“Aqui sob os epitáfios e as cruzes não há quase nada. Aqui não estarei eu. Estarão meu cabelo e minhas unhas, que não saberão que o resto morreu, e seguirão crescendo e serão pó” (Jorge Luís Borges)

Sempre que a ele se referiam como um dos últimos sábios sobre a terra, dizia: “Não, não tenho nenhuma sabedoria. Na verdade li muito pouco, e escrevi alguns livros, somente”.

*            *    

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Jorge Luis Borges



 Cometi o pior dos pecados
que um homem possa cometer: Não fui feliz.
Que os glaciares do esquecimento
me arrastem e percam, desapiedados. Meus pais me engendraram
para o jogo arriscado e formoso da vida, Para a terra, a água, o ar, o fogo.
Eu os defraudei. Não fui feliz.
Cumprida não foi sua jovem vontade. Minha mente se aplicou
às simétricas porfias da arte, que entretece o nada.
Me legaram valor, não fui valente.
Não me abandona, sempre está ao meu lado
a sombra de haver sido um infeliz.

  

EVERNESS

Só uma coisa não há: e esta é o olvido.
Deus, que salva o metal, e salva a escória,
cifra em Sua profética memória
as luas que serão e as que têm sido.
Já tudo fica. A seqüência infinita
de imagens que entre a aurora e o fim do dia
teu rosto nos espelhos deposita
e essas que irá deixando todavia.
E tudo é só uma parte do diverso
cristal desta memória: o universo.
Não têm fim os seus árduos corredores,
e se fecham as portas ao passares;
e só quando na noite penetrares,
do Arquétipo verás os esplendores.



UM CEGO

Não sei qual é a face que me mira
quando miro essa face que há no espelho;
e desconheço no reflexo o velho
que o escruta, com silente e exausta ira.
Lento na sombra, com a mão exploro
meus traços invisíveis. Um lampejo
me alcança. O seu cabelo, que entrevejo,
é todo cinza ou é ainda de ouro.
Repito que perdi unicamente
a superfície vã das simples coisas.
Meu consolo é de Milton e é valente,
porém penso nas letras e nas rosas.
Penso que se pudesse ver meu rosto
saberia quem sou neste sol-posto.



A CHUVA

A tarde bruscamente se aclarou,
porque já cai a chuva minuciosa.
Cai e caiu. A chuva é só uma coisa
que o passado por certo freqüentou.
Quem a escuta cair já recobrou
o tempo em que a fortuna venturosa
uma flor lhe mostrou chamada rosa
e a cor bizarra do que cor tomou.
Esta chuva que treme sobre os vidros
alegrará nuns arrabaldes idos
as negras uvas de uma parra em horto
que não existe mais. A umedecida
tarde me traz a voz, a voz querida
de meu pai que retorna e não é morto.



XADREZ

I

Em seu grave rincão, os jogadores
as peças vão movendo. O tabuleiro
retarda-os até a aurora em seu severo
âmbito, em que se odeiam duas cores.
Dentro irradiam mágicos rigores
as formas: torre homérica, ligeiro
cavalo, armada rainha, rei postreiro,
oblíquo bispo e peões agressores.
Quando esses jogadores tenham ido,
quando o amplo tempo os haja consumido,
por certo não terá cessado o rito.
Foi no Oriente que se armou tal guerra,
cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Como aquele outro, este jogo é infinito.


II

Rei tênue, torto bispo, encarniçada
rainha, torre direta e peão ladino
por sobre o negro e o branco do caminho
buscam e libram a batalha armada.
Desconhecem que a mão assinalada
do jogador governa seu destino,
não sabem que um rigor adamantino
sujeita seu arbítrio e sua jornada.
Também o jogador é prisioneiro
(diz-nos Omar) de um outro tabuleiro
de negras noites e de brancos dias.
Deus move o jogador, e este a peleja.
Que deus por trás de Deus a trama enseja
de poeira e tempo e sonho e agonias?



O SUICIDA

Não restará na noite uma estrela.
Não restará a noite.
Morrerei, e comigo a soma
do intolerável universo.
Apagarei as pirâmides, as medalhas,
os continentes e os rostos.
Apagarei a acumulação do passado.
Transformarei em pó a história, em pó o pó.
Estou mirando o último poente.
Ouço o último pássaro.
Deixo o nada a ninguém.


(Traduções de Renato Suttana)