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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

CANÇÃO


Emílio Moura

Que consciência dividida
me faz ser dois e, em seguida,
me torna um só, mas sem vida?

Quem me trouxe a este degredo?
Quem me jogou desde cedo
em labirintos de medo?

Que sombra, estigma ou segredo
se grava, trêmulo, a medo,
em minha face plural?

Quem te conta o que não digo
e dorme sempre comigo
sono de pedra e de cal?

domingo, 15 de dezembro de 2013

SONETO A CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Emílio Moura

A hora madura envolve-te e palpita
nela o que ora te oferta, ora recusa:
posse do que és, na solidão recôndita,
graça de amar, ressurreição dos mitos.

Claros enigmas riscam céus distantes.
Falam-te as coisas pela voz que é o próprio
sentimento do mundo e pela meiga
sombra gentil que ressuscita a infância.

Ouço-te andar nas lajes desta rua,
que nem sei se é de Minas ou de alguma
pátria remota que ao teu canto se abre.

E amo-te a voz multiplicada em ecos:
verbo dócil à força íntima e pura
que à máquina do mundo se incorpora.

sábado, 15 de junho de 2013

Renucia


Emilio Moura
Se eu cheguei a esta renúncia total, foi porque o meu sofrimento me transfigurou sem que eu o percebesse.
Aqui estou, tímido e humilde.
Parece que aqui estou há séculos.
Meus olhos já não compreendem outra realidade.
A realidade que amei dorme na sombra.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Emílio Moura



Súplica

Os inquietos, os loucos, os que ainda não Te descobriram, e os que nada compreendem,
os que pararam, e os que jamais tentaram a grande jornada,
todos eles. Senhor, estão comigo neste momento.

Comigo estão todos os que perderam a grande partida.
Comigo estão, Senhor, todos os que Te deixaram,
e os que não souberam buscar-Te.
Comigo estão os que não Te amam, nem Te compreendem,
os que Te negam, porque são felizes,
e os que te negam, porque são infelizes.
Senhor, todos eles estão, agora, em minha insônia e em minha desolação, como a presença
[da morte está na máscara dos que nada esperam.
Mata-os em mim, Senhor.


In:"Itinerário Poético"

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Emílio Moura



Canção


Viver não dói. O que dói
é a vida que se não vive.
Tanto mais bela sonhada,
quanto mais triste perdida.

Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora.

Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez,
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos.

Viver não dói. O que dói,
ferindo fundo, ferindo,
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido.

Que tudo o mais é perdido.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Interrogação



Emilio Moura

Sozinho, sozinho, perdido na bruma. 
Há vozes aflitas que sobem, que sobem. 
Mas, sob a rajada ainda há barcos com velas
e há faróis que ninguém sabe de que terras são.

- Senhor, são os remos ou são as ondas o que dirige o meu barco? 
Eu tenho as mãos cansadas
e o barco voa dentro da noite..