quinta-feira, 13 de agosto de 2026

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Haicai

 


Fuça aqui e lá, 
O anel caiu na lama, 
Saiu do focinho. 

Fatima Fonseca


(Nunca jogue pérolas em porcos)

domingo, 9 de agosto de 2026

 


Carta a um desamor


Escrevo a um desamor para dizer-lhe que hoje eu o encontrei em uns rabiscos amarelados. E por que escrevo? Escrevo porque é libertador.

Inesquecível desamor,
Lembro que saí de sua embarcação como entrei. Sozinha.
E que culpa tem você se eu insisti em o querer no meu caminho solitário.
Que culpa tem você se encontrei no seu olhar uma semente de luz que acendeu do meu lado esquerdo um astro ignorado.
Sigo... E, sedenta de luz, sublinhei a palavra lucidez na menina dos olhos.
Por vezes, um piscar e um suspiro.
Febre súbita?
Sempre murmuro comigo:
Não! Não  mais!

FatimaFonseca

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Entardecer

 



Os vaga-lumes 

já não atravessam mais 

o interior do meu breu.

não que eu não permita.

é que não tenho mais fome

de tsunamis.


As ilusões

vestidas de fantasias 

ficaram na esquina.

Talvez por isso 

essa apatia 

essa náusea 

que eu chamo de entardecer.


                  Fátima Fonseca


Foto: _Sônia Antunes Faria_

 “Eu amo tudo o que foi

Tudo o que já não é

A dor que já me não dói

A antiga e errônea fé

O ontem que a dor deixou, 

O que deixou alegria 

Só porque foi, e voou 

E hoje é já outro dia”.


Fernando Pessoa

sábado, 18 de julho de 2026

Vento


 Ouçam o baruuulho.

Por aqui hoje o vento chegou fagulhando.

Desconfio que foi a convite das árvores, 

pois todas estão com as saias levantadas

Fatima Fonseca

Brumadinho MG

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Há dias



Há dias em que julgamos

que todo o lixo do mundo

nos cai em cima.Depois

ao chegarmos à varanda avistamos

as crianças correndo no molhe

enquanto cantam.

Não lhes sei o nome.Uma ou outra parece-se comigo.

Quero eu dizer :com o que fui

quando cheguei a ser

luminosa presença da graça,

ou da alegria.

Um sorriso abre-se então

num verão antigo.

E dura,dura ainda.


        _Eugénio de Andrade_,  “Os lugares de Lume”.

sábado, 11 de julho de 2026

Haicai

 



Aqui primavera:

as orquídeas escrevem

flores nos troncos.


Haicai e foto - _Fátima Fonseca._

quarta-feira, 1 de julho de 2026

 


"Nessa hora me refaço, renasço em cada pedaço daquilo que foi partido [...] se um de mim já é forte, não há um mal que suporte vários pedaços de mim."


(Braulio Bessa)

terça-feira, 30 de junho de 2026

 Senhor, me dê equilíbrio para quando encontrar pedra não versar pedra.

Pedra

 Mês findando

   ainda folhas otonadas no jardim

         ...e nem arredei a pedra

                que oprime meu gerânio.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

 “Eu amo tudo o que foi

Tudo o que já não é

A dor que já me não dói

A antiga e errônea fé 

O ontem que a dor deixou, 

O que deixou alegria 

Só porque foi, e voou

E hoje é já outro dia”.


Fernando Pessoa

terça-feira, 9 de junho de 2026

Hai cai



Fachos  de luz

sol nascente

desperta o louva-a-deus



*Haicai e foto - _Fátima Fonseca._*

sábado, 23 de maio de 2026

Para quem cuida, eterno se torna

 Em Quincas Borba, Machado de Assis oferece uma das mais delicadas reflexões sobre afeto, cuidado e permanência:


“Para as rosas, escreveu alguém, o jardineiro é eterno.”

A rosa desconhece o tempo do homem. Não sabe de sua brevidade, de seus cansaços ou de sua inevitável partida. Conhece apenas a mão que a rega, a paciência que a poda e a constância silenciosa de quem se dedica a preservá-la.
Talvez assim também aconteça com aqueles que amamos. Para quem recebe cuidado verdadeiro, a presença de quem cuida adquire um sentido de permanência. Não porque seja de fato eterna, mas porque se grava na memória com a força das coisas essenciais.
Há pessoas cuja maior grandeza não está no que dizem, mas no zelo discreto com que permanecem. São jardineiros de vidas alheias: sustentam, protegem e, muitas vezes sem reconhecimento, tornam possível o florescimento do outro.
E quando o tempo passa, descobre-se que certas presenças não desaparecem. Continuam existindo na lembrança, como se a alma, à semelhança das rosas, não soubesse conceber o mundo sem aqueles que um dia a cultivaram.


#machadodeassis

A compaixão a distância

 Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis resume com ironia uma das mais discretas fragilidades do coração humano:


“Suporta-se com muita paciência a dor no fígado alheio.”


Nada é mais tolerável do que o sofrimento que não nos pertence.

Enquanto a dor repousa no corpo do outro, somos capazes de oferecer conselhos ponderados, palavras serenas e uma admirável paciência. A aflição alheia, vista à distância, parece sempre mais simples, mais suportável e menos urgente do que as nossas próprias inquietações.

Machado revela, com a elegância de um bisturi, que grande parte da compaixão humana floresce justamente onde não há risco de ferida pessoal. É fácil demonstrar serenidade quando o golpe recai sobre outro peito.

No fundo, não é a nossa bondade que se evidencia, mas o conforto silencioso de permanecermos intactos.

Referência:

Trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

sábado, 16 de maio de 2026

Hai cai

  Uma tarde finda

A roça de margaridas

Venta boas-vindas


           Fatima Fonseca

terça-feira, 12 de maio de 2026

Haicai

 


Na tarde de maio

O pente do vento

Desembaraçou as nuvens.


 - _Rosângela Alves._

segunda-feira, 6 de abril de 2026

 

Para a minha apatia

queria

a visita desse vermelho-sangue

com esse laço roxo

de amor confidencial 

deitado

no ombro do poema


              *_Fátima Fonseca_*

domingo, 22 de março de 2026

Corona


Da mão o outono me come sua folha: somos amigos. 

Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a andar:

o tempo retorna à casca.


No espelho é domingo.

no sonho se dorme,

a boca não mente. 


Meu olho desce ao sexo da amada:

olhamo-nos,

dizemo-nos o obscuro,

amamo-nos como ópio e memória,

dormimos como vinho nas conchas,

como o mar no raio sangrento da lua.


Entrelaçados à janela, olham-nos da rua:

já é tempo de saber!

Tempo da pedra dispor-se a florescer,

de um coração palpitar pelo inquieto.

É tempo do tempo ser.


É tempo.


         _Paul Celan_

sexta-feira, 20 de março de 2026

Tempo de outono

 Tempo 

                 

É mesmo assim

esse tempo de espera.

Um cobertor bordado

de folhas encarnadas.

Um  não-sei-quê ...

Convite ao silêncio,

à reflexão.

Ventos  pressentindo

o desmaiar  da estação.

Deixar ir.

Outono chegando...


Fatima Fonseca

domingo, 8 de março de 2026

Mulher

“Que nada nos defina.
Que nada nos sujeite.
Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre”.

Simone de Beauvoir, filósofa e escritora

Flores para as mulheres...


Flores? Ah, as mulheres... O 08 de março repetitivo. Pergunta-se: para quem serão essas flores? Para as vivas ou para as mortas? Neste país que convive com a matança de mulheres. ff


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

 ...Em tudo de tudo - Talvez tenha uma razão /

Um passo lento arrastado /
Uma voz calada embargada /
Um sorriso doce escondido /
Uma vontade louca de expulsar uma lágrima /
E nos olhos um olhar tristonho /
Em tudo de tudo - Apenas um desejo louco /
De amar - ...Alguém !!!

Jmal