Oras bolas!
Por onde andas o príncipe que a cartomante me mostrou na bola de cristal?
Amador na arte de amar?
Lamentou a menina!
ff
Votem em mim
Ando vestida de lua,
já bebi leite de estrelas,
só roubei palavras de poetas embriagados.
Está declarado:
tenho uma rocinha de poemas.
Prometo plantar esperanças sempre-vivas
e proteger os louva-a-deus.
Meu partido?
O amor que grita pelo poder.
Fátima Fonseca
Pés no chão,
avoada, a caminho da lua
um sol na menina dos olhos
sempre andei com água na boca,
mas sou libriana.
Sou do ar.
ff
Puxo o fio da escrita
Mergulho entre o Tigre e o Eufrates
Encontro cunha molhada
Marcando traços no barro
Invento a escrita.
Escrevo listas de ovelhas
Descrevo mantimentos para venda
Escrevo quando alguém morre
Escrevo histórias.
Escrevo para não esquecer!
Eu, Gilgamé, não sou esquecido
Viro poema épico
Deixo rastros
Invento lembranças
Resgato sentimentos.
Escrevo para não me deixar esquecer!
Puxo o fio da escrita-
De uma ponta a outra-
Escrevo para não me deixar esquecer!
Márcia Sartorelo
Arte:Cécille veilhan
Aprendiz de poeta, escrever é um jeito que gosto de existir. Garimpeira de sentidos abstratos, bebo goles de palavras. Nesse lugar, onde um exército invadiu meus domínios, derrubou muros e ganhei um alvará de soltura.
Fatima Fonseca
Venho de um lugar
onde há uma gruta
com seus insondáveis mistérios.
Nela habitam vários estrangeiros
que falam as línguas das pedras,
dos capins, dos ventos e suas sílabas.
Sou parte dessa gente
que canta para a chuva chover,
numa audácia de esperançar.
Eu sei que o mundo é maior
que a minha gruta,
meu chão e suas raízes.
O universo sou eu;
escrevo, contudo.
Fátima Fonseca
Meu amor,
Se me ama, por favor, não diga
que me amará por toda a sua vida.
Não só porque a sua declaração aprisiona
e não lhe posso prometer o mesmo,
mas também porque eu poderia acreditar na sua promessa e esquecer que você é temporário.
Vamos viver o amor de cada dia.
E se um dia for de despedida, será em silêncio,
como os pés descalços atravessando um poema de
Florbela Espanca.
Fatima Fonseca
Era uma vez um poema
que foi escrito em letras
cursivas douradas.
Outra vez,
o poema foi escrito e talhado.
Mais uma vez, em vão,
em vão foi lido e rasgado.
Não sei o porquê
de insistir em um poema
destinado a morrer assim,
como esse que fiz para você.
FF
Os vaga-lumes
já não atravessam mais
o interior do meu breu.
não que eu não permita.
é que não tenho mais fome
de tsunamis.
As ilusões
vestidas de fantasias
ficaram na esquina.
Talvez por isso
essa apatia
essa náusea
que eu chamo de entardecer.
Fátima Fonseca
Foto: _Sônia Antunes Faria_
Por aqui hoje o vento chegou fagulhando.
Desconfio que foi a convite das árvores,
pois todas estão com as saias levantadas
Fatima Fonseca
Brumadinho MG
Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima.Depois
ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam.
Não lhes sei o nome.Uma ou outra parece-se comigo.
Quero eu dizer :com o que fui
quando cheguei a ser
luminosa presença da graça,
ou da alegria.
Um sorriso abre-se então
num verão antigo.
E dura,dura ainda.
_Eugénio de Andrade_, “Os lugares de Lume”.
Em Quincas Borba, Machado de Assis oferece uma das mais delicadas reflexões sobre afeto, cuidado e permanência:
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis resume com ironia uma das mais discretas fragilidades do coração humano:
“Suporta-se com muita paciência a dor no fígado alheio.”
Nada é mais tolerável do que o sofrimento que não nos pertence.
Enquanto a dor repousa no corpo do outro, somos capazes de oferecer conselhos ponderados, palavras serenas e uma admirável paciência. A aflição alheia, vista à distância, parece sempre mais simples, mais suportável e menos urgente do que as nossas próprias inquietações.
Machado revela, com a elegância de um bisturi, que grande parte da compaixão humana floresce justamente onde não há risco de ferida pessoal. É fácil demonstrar serenidade quando o golpe recai sobre outro peito.
No fundo, não é a nossa bondade que se evidencia, mas o conforto silencioso de permanecermos intactos.
Referência:
Trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
Da mão o outono me come sua folha: somos amigos.
Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a andar:
o tempo retorna à casca.
No espelho é domingo.
no sonho se dorme,
a boca não mente.
Meu olho desce ao sexo da amada:
olhamo-nos,
dizemo-nos o obscuro,
amamo-nos como ópio e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no raio sangrento da lua.
Entrelaçados à janela, olham-nos da rua:
já é tempo de saber!
Tempo da pedra dispor-se a florescer,
de um coração palpitar pelo inquieto.
É tempo do tempo ser.
É tempo.
_Paul Celan_
Tempo
É mesmo assim
esse tempo de espera.
Um cobertor bordado
de folhas encarnadas.
Um não-sei-quê ...
Convite ao silêncio,
à reflexão.
Ventos pressentindo
o desmaiar da estação.
Deixar ir.
Outono chegando...
Fatima Fonseca
Flores? Ah, as mulheres... O 08 de março repetitivo. Pergunta-se: para quem serão essas flores? Para as vivas ou para as mortas? Neste país que convive com a matança de mulheres. ff