Caiu de amores
uma orquidea enverga
abriu em flores
Fatima Fonseca
Os vaga-lumes
já não atravessam mais
o interior do meu breu.
não que eu não permita.
é que não tenho mais fome
de tsunamis.
As ilusões
vestidas de fantasias
ficaram na esquina.
Talvez por isso
essa apatia
essa náusea
que eu chamo de entardecer.
Fátima Fonseca
Foto: _Sônia Antunes Faria_
Por aqui hoje o vento chegou fagulhando.
Desconfio que foi a convite das árvores,
pois todas estão com as saias levantadas
Fatima Fonseca
Brumadinho MG
Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima.Depois
ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam.
Não lhes sei o nome.Uma ou outra parece-se comigo.
Quero eu dizer :com o que fui
quando cheguei a ser
luminosa presença da graça,
ou da alegria.
Um sorriso abre-se então
num verão antigo.
E dura,dura ainda.
_Eugénio de Andrade_, “Os lugares de Lume”.
Em Quincas Borba, Machado de Assis oferece uma das mais delicadas reflexões sobre afeto, cuidado e permanência:
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis resume com ironia uma das mais discretas fragilidades do coração humano:
“Suporta-se com muita paciência a dor no fígado alheio.”
Nada é mais tolerável do que o sofrimento que não nos pertence.
Enquanto a dor repousa no corpo do outro, somos capazes de oferecer conselhos ponderados, palavras serenas e uma admirável paciência. A aflição alheia, vista à distância, parece sempre mais simples, mais suportável e menos urgente do que as nossas próprias inquietações.
Machado revela, com a elegância de um bisturi, que grande parte da compaixão humana floresce justamente onde não há risco de ferida pessoal. É fácil demonstrar serenidade quando o golpe recai sobre outro peito.
No fundo, não é a nossa bondade que se evidencia, mas o conforto silencioso de permanecermos intactos.
Referência:
Trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
Da mão o outono me come sua folha: somos amigos.
Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a andar:
o tempo retorna à casca.
No espelho é domingo.
no sonho se dorme,
a boca não mente.
Meu olho desce ao sexo da amada:
olhamo-nos,
dizemo-nos o obscuro,
amamo-nos como ópio e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no raio sangrento da lua.
Entrelaçados à janela, olham-nos da rua:
já é tempo de saber!
Tempo da pedra dispor-se a florescer,
de um coração palpitar pelo inquieto.
É tempo do tempo ser.
É tempo.
_Paul Celan_
Tempo
É mesmo assim
esse tempo de espera.
Um cobertor bordado
de folhas encarnadas.
Um não-sei-quê ...
Convite ao silêncio,
à reflexão.
Ventos pressentindo
o desmaiar da estação.
Deixar ir.
Outono chegando...
Fatima Fonseca
Flores? Ah, as mulheres... O 08 de março repetitivo. Pergunta-se: para quem serão essas flores? Para as vivas ou para as mortas? Neste país que convive com a matança de mulheres. ff