domingo, 22 de março de 2026

Corona


Da mão o outono me come sua folha: somos amigos. 

Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a andar:

o tempo retorna à casca.


No espelho é domingo.

no sonho se dorme,

a boca não mente. 


Meu olho desce ao sexo da amada:

olhamo-nos,

dizemo-nos o obscuro,

amamo-nos como ópio e memória,

dormimos como vinho nas conchas,

como o mar no raio sangrento da lua.


Entrelaçados à janela, olham-nos da rua:

já é tempo de saber!

Tempo da pedra dispor-se a florescer,

de um coração palpitar pelo inquieto.

É tempo do tempo ser.


É tempo.


         _Paul Celan_

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