Fachos de luz
sol nascente
desperta o louva-a-deus
*Haicai e foto - _Fátima Fonseca._*
"Quando nem Freud explica, tente a poesia"
Em Quincas Borba, Machado de Assis oferece uma das mais delicadas reflexões sobre afeto, cuidado e permanência:
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis resume com ironia uma das mais discretas fragilidades do coração humano:
“Suporta-se com muita paciência a dor no fígado alheio.”
Nada é mais tolerável do que o sofrimento que não nos pertence.
Enquanto a dor repousa no corpo do outro, somos capazes de oferecer conselhos ponderados, palavras serenas e uma admirável paciência. A aflição alheia, vista à distância, parece sempre mais simples, mais suportável e menos urgente do que as nossas próprias inquietações.
Machado revela, com a elegância de um bisturi, que grande parte da compaixão humana floresce justamente onde não há risco de ferida pessoal. É fácil demonstrar serenidade quando o golpe recai sobre outro peito.
No fundo, não é a nossa bondade que se evidencia, mas o conforto silencioso de permanecermos intactos.
Referência:
Trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
Da mão o outono me come sua folha: somos amigos.
Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a andar:
o tempo retorna à casca.
No espelho é domingo.
no sonho se dorme,
a boca não mente.
Meu olho desce ao sexo da amada:
olhamo-nos,
dizemo-nos o obscuro,
amamo-nos como ópio e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no raio sangrento da lua.
Entrelaçados à janela, olham-nos da rua:
já é tempo de saber!
Tempo da pedra dispor-se a florescer,
de um coração palpitar pelo inquieto.
É tempo do tempo ser.
É tempo.
_Paul Celan_
Tempo
É mesmo assim
esse tempo de espera.
Um cobertor bordado
de folhas encarnadas.
Um não-sei-quê ...
Convite ao silêncio,
à reflexão.
Ventos pressentindo
o desmaiar da estação.
Deixar ir.
Outono chegando...
Fatima Fonseca