sábado, 23 de maio de 2026

Para quem cuida, eterno se torna

 Em Quincas Borba, Machado de Assis oferece uma das mais delicadas reflexões sobre afeto, cuidado e permanência:


“Para as rosas, escreveu alguém, o jardineiro é eterno.”

A rosa desconhece o tempo do homem. Não sabe de sua brevidade, de seus cansaços ou de sua inevitável partida. Conhece apenas a mão que a rega, a paciência que a poda e a constância silenciosa de quem se dedica a preservá-la.
Talvez assim também aconteça com aqueles que amamos. Para quem recebe cuidado verdadeiro, a presença de quem cuida adquire um sentido de permanência. Não porque seja de fato eterna, mas porque se grava na memória com a força das coisas essenciais.
Há pessoas cuja maior grandeza não está no que dizem, mas no zelo discreto com que permanecem. São jardineiros de vidas alheias: sustentam, protegem e, muitas vezes sem reconhecimento, tornam possível o florescimento do outro.
E quando o tempo passa, descobre-se que certas presenças não desaparecem. Continuam existindo na lembrança, como se a alma, à semelhança das rosas, não soubesse conceber o mundo sem aqueles que um dia a cultivaram.


#machadodeassis

A compaixão a distância

 Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis resume com ironia uma das mais discretas fragilidades do coração humano:


“Suporta-se com muita paciência a dor no fígado alheio.”


Nada é mais tolerável do que o sofrimento que não nos pertence.

Enquanto a dor repousa no corpo do outro, somos capazes de oferecer conselhos ponderados, palavras serenas e uma admirável paciência. A aflição alheia, vista à distância, parece sempre mais simples, mais suportável e menos urgente do que as nossas próprias inquietações.

Machado revela, com a elegância de um bisturi, que grande parte da compaixão humana floresce justamente onde não há risco de ferida pessoal. É fácil demonstrar serenidade quando o golpe recai sobre outro peito.

No fundo, não é a nossa bondade que se evidencia, mas o conforto silencioso de permanecermos intactos.

Referência:

Trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

sábado, 16 de maio de 2026

Hai cai

  Uma tarde finda

A roça de margaridas

Venta boas-vindas


           Fatima Fonseca

terça-feira, 12 de maio de 2026

Haicai

 


Na tarde de maio

O pente do vento

Desembaraçou as nuvens.


 - _Rosângela Alves._

segunda-feira, 6 de abril de 2026

 

Para a minha apatia

queria

a visita desse vermelho-sangue

com esse laço roxo

de amor confidencial 

deitado

no ombro do poema


              *_Fátima Fonseca_*

domingo, 22 de março de 2026

Corona


Da mão o outono me come sua folha: somos amigos. 

Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a andar:

o tempo retorna à casca.


No espelho é domingo.

no sonho se dorme,

a boca não mente. 


Meu olho desce ao sexo da amada:

olhamo-nos,

dizemo-nos o obscuro,

amamo-nos como ópio e memória,

dormimos como vinho nas conchas,

como o mar no raio sangrento da lua.


Entrelaçados à janela, olham-nos da rua:

já é tempo de saber!

Tempo da pedra dispor-se a florescer,

de um coração palpitar pelo inquieto.

É tempo do tempo ser.


É tempo.


         _Paul Celan_

sexta-feira, 20 de março de 2026

Tempo de outono

 Tempo 

                 

É mesmo assim

esse tempo de espera.

Um cobertor bordado

de folhas encarnadas.

Um  não-sei-quê ...

Convite ao silêncio,

à reflexão.

Ventos  pressentindo

o desmaiar  da estação.

Deixar ir.

Outono chegando...


Fatima Fonseca

domingo, 8 de março de 2026

Mulher

“Que nada nos defina.
Que nada nos sujeite.
Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre”.

Simone de Beauvoir, filósofa e escritora

Flores para as mulheres...


Flores? Ah, as mulheres... O 08 de março repetitivo. Pergunta-se: para quem serão essas flores? Para as vivas ou para as mortas? Neste país que convive com a matança de mulheres. ff


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

 ...Em tudo de tudo - Talvez tenha uma razão /

Um passo lento arrastado /
Uma voz calada embargada /
Um sorriso doce escondido /
Uma vontade louca de expulsar uma lágrima /
E nos olhos um olhar tristonho /
Em tudo de tudo - Apenas um desejo louco /
De amar - ...Alguém !!!

Jmal