Senhor, me dê equilíbrio para quando encontrar pedra não versar pedra.
Luz do Cerrado
"Quando nem Freud explica, tente a poesia"
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sábado, 23 de maio de 2026
Para quem cuida, eterno se torna
Em Quincas Borba, Machado de Assis oferece uma das mais delicadas reflexões sobre afeto, cuidado e permanência:
“Para as rosas, escreveu alguém, o jardineiro é eterno.”
A rosa desconhece o tempo do homem. Não sabe de sua brevidade, de seus cansaços ou de sua inevitável partida. Conhece apenas a mão que a rega, a paciência que a poda e a constância silenciosa de quem se dedica a preservá-la.
Talvez assim também aconteça com aqueles que amamos. Para quem recebe cuidado verdadeiro, a presença de quem cuida adquire um sentido de permanência. Não porque seja de fato eterna, mas porque se grava na memória com a força das coisas essenciais.
Há pessoas cuja maior grandeza não está no que dizem, mas no zelo discreto com que permanecem. São jardineiros de vidas alheias: sustentam, protegem e, muitas vezes sem reconhecimento, tornam possível o florescimento do outro.
E quando o tempo passa, descobre-se que certas presenças não desaparecem. Continuam existindo na lembrança, como se a alma, à semelhança das rosas, não soubesse conceber o mundo sem aqueles que um dia a cultivaram.
#machadodeassis
A compaixão a distância
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis resume com ironia uma das mais discretas fragilidades do coração humano:
“Suporta-se com muita paciência a dor no fígado alheio.”
Nada é mais tolerável do que o sofrimento que não nos pertence.
Enquanto a dor repousa no corpo do outro, somos capazes de oferecer conselhos ponderados, palavras serenas e uma admirável paciência. A aflição alheia, vista à distância, parece sempre mais simples, mais suportável e menos urgente do que as nossas próprias inquietações.
Machado revela, com a elegância de um bisturi, que grande parte da compaixão humana floresce justamente onde não há risco de ferida pessoal. É fácil demonstrar serenidade quando o golpe recai sobre outro peito.
No fundo, não é a nossa bondade que se evidencia, mas o conforto silencioso de permanecermos intactos.
Referência:
Trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.


