sábado, 18 de julho de 2026

Vento

 Ouçam o baruuulho.

Por aqui hoje o vento chegou fagulhando.

Desconfio que foi a convite das árvores, 

pois todas estão com as saias levantadas

Fatima Fonseca

Brumadinho MG

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Há dias



Há dias em que julgamos

que todo o lixo do mundo

nos cai em cima.Depois

ao chegarmos à varanda avistamos

as crianças correndo no molhe

enquanto cantam.

Não lhes sei o nome.Uma ou outra parece-se comigo.

Quero eu dizer :com o que fui

quando cheguei a ser

luminosa presença da graça,

ou da alegria.

Um sorriso abre-se então

num verão antigo.

E dura,dura ainda.


        _Eugénio de Andrade_,  “Os lugares de Lume”.

sábado, 11 de julho de 2026

Haicai

 



Aqui primavera:

as orquídeas escrevem

flores nos troncos.


Haicai e foto - _Fátima Fonseca._

quarta-feira, 1 de julho de 2026

 


"Nessa hora me refaço, renasço em cada pedaço daquilo que foi partido [...] se um de mim já é forte, não há um mal que suporte vários pedaços de mim."


(Braulio Bessa)

terça-feira, 30 de junho de 2026

 Senhor, me dê equilíbrio para quando encontrar pedra não versar pedra.

Pedra

 Mês findando

   ainda folhas otonadas no jardim

         ...e nem arredei a pedra

                que oprime meu gerânio.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

 “Eu amo tudo o que foi

Tudo o que já não é

A dor que já me não dói

A antiga e errônea fé 

O ontem que a dor deixou, 

O que deixou alegria 

Só porque foi, e voou

E hoje é já outro dia”.


Fernando Pessoa

terça-feira, 9 de junho de 2026

Hai cai



Fachos  de luz

sol nascente

desperta o louva-a-deus



*Haicai e foto - _Fátima Fonseca._*

sábado, 23 de maio de 2026

Para quem cuida, eterno se torna

 Em Quincas Borba, Machado de Assis oferece uma das mais delicadas reflexões sobre afeto, cuidado e permanência:


“Para as rosas, escreveu alguém, o jardineiro é eterno.”

A rosa desconhece o tempo do homem. Não sabe de sua brevidade, de seus cansaços ou de sua inevitável partida. Conhece apenas a mão que a rega, a paciência que a poda e a constância silenciosa de quem se dedica a preservá-la.
Talvez assim também aconteça com aqueles que amamos. Para quem recebe cuidado verdadeiro, a presença de quem cuida adquire um sentido de permanência. Não porque seja de fato eterna, mas porque se grava na memória com a força das coisas essenciais.
Há pessoas cuja maior grandeza não está no que dizem, mas no zelo discreto com que permanecem. São jardineiros de vidas alheias: sustentam, protegem e, muitas vezes sem reconhecimento, tornam possível o florescimento do outro.
E quando o tempo passa, descobre-se que certas presenças não desaparecem. Continuam existindo na lembrança, como se a alma, à semelhança das rosas, não soubesse conceber o mundo sem aqueles que um dia a cultivaram.


#machadodeassis