Luz do Cerrado
"Quando nem Freud explica, tente a poesia"
domingo, 9 de agosto de 2026
Carta a um desamor
Lembro que saí de sua embarcação como entrei. Sozinha.
E que culpa tem você se eu insisti em o querer no meu caminho solitário.
Que culpa tem você se encontrei no seu olhar uma semente de luz que acendeu do meu lado esquerdo um astro ignorado.
Sigo... E, sedenta de luz, sublinhei a palavra lucidez na menina dos olhos.
Por vezes, um piscar e um suspiro.
Febre súbita?
Sempre murmuro comigo:
Não! Não mais!
sexta-feira, 31 de julho de 2026
Entardecer
Os vaga-lumes
já não atravessam mais
o interior do meu breu.
não que eu não permita.
é que não tenho mais fome
de tsunamis.
As ilusões
vestidas de fantasias
ficaram na esquina.
Talvez por isso
essa apatia
essa náusea
que eu chamo de entardecer.
Fátima Fonseca
Foto: _Sônia Antunes Faria_
sábado, 18 de julho de 2026
Vento
Ouçam o baruuulho.
Por aqui hoje o vento chegou fagulhando.
Desconfio que foi a convite das árvores,
pois todas estão com as saias levantadas
Fatima Fonseca
Brumadinho MG
quarta-feira, 15 de julho de 2026
Há dias
Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima.Depois
ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam.
Não lhes sei o nome.Uma ou outra parece-se comigo.
Quero eu dizer :com o que fui
quando cheguei a ser
luminosa presença da graça,
ou da alegria.
Um sorriso abre-se então
num verão antigo.
E dura,dura ainda.
_Eugénio de Andrade_, “Os lugares de Lume”.




