Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis resume com ironia uma das mais discretas fragilidades do coração humano:
“Suporta-se com muita paciência a dor no fígado alheio.”
Nada é mais tolerável do que o sofrimento que não nos pertence.
Enquanto a dor repousa no corpo do outro, somos capazes de oferecer conselhos ponderados, palavras serenas e uma admirável paciência. A aflição alheia, vista à distância, parece sempre mais simples, mais suportável e menos urgente do que as nossas próprias inquietações.
Machado revela, com a elegância de um bisturi, que grande parte da compaixão humana floresce justamente onde não há risco de ferida pessoal. É fácil demonstrar serenidade quando o golpe recai sobre outro peito.
No fundo, não é a nossa bondade que se evidencia, mas o conforto silencioso de permanecermos intactos.
Referência:
Trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
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