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domingo, 22 de março de 2026

Corona


Da mão o outono me come sua folha: somos amigos. 

Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a andar:

o tempo retorna à casca.


No espelho é domingo.

no sonho se dorme,

a boca não mente. 


Meu olho desce ao sexo da amada:

olhamo-nos,

dizemo-nos o obscuro,

amamo-nos como ópio e memória,

dormimos como vinho nas conchas,

como o mar no raio sangrento da lua.


Entrelaçados à janela, olham-nos da rua:

já é tempo de saber!

Tempo da pedra dispor-se a florescer,

de um coração palpitar pelo inquieto.

É tempo do tempo ser.


É tempo.


         _Paul Celan_

quarta-feira, 17 de maio de 2017

homenagem ao escritor Paul Celan



                                                                              Fátima Fonseca
A ponte que atravessa o rio Sena
um dia abriu os braços e  murmurou:

Em meus lençóis há deleite.
Tenho sombra e flores para enfeite.
Venha calar suas feridas.
Posso condensar numa só gota sua vida sofrida.

O silêncio amplia o vazio.
O coração da laje começa a bater
Empalidecida  e muda a ponte Mirabeau testemunhou:
Como foi a acolhida para sempre  da rubra estrela pelo  rio Sena
naquela tarde de abril.

E a vida se foi com a água corrente
Num continuo infinito...
escrevendo caminho na cidade luz.