segunda-feira, 6 de abril de 2020

Desperto taciturno para o resto do dia
e por detrás de uma nuvem
o olho de Deus mantém o silêncio.
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Sou a sombra de todos os rostos,
dependente de um tempo exato,
mestre em horas de miséria
ou desempregado frente a paragens de transportes.
Trago comigo uma dor de pedra entre as mãos.
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Afastado de toda a caridade
renuncio a ser apóstolo de uma fé em mim mesmo.
Oficio aqui os silêncios da página.
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Sou herói e peão do instante e da surpresa.
Aqui aguardo as súplicas do acaso
e uma sensação de sede como agulha entre as palavras.
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Hoje não tenho necessidade de fingir
que prefiro a vida qu'em mim tropeça.
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Mijail Lamas in "Cuaderno de Tyler Durden". Buenos Aires: El Suri Porfiado Ediciones, 2014, p 12 (Tradução de Victor Oliveira Mateus)

quarta-feira, 4 de março de 2020

DESFILE DE FEBEAPÁ

                                                                              Sebastião Aimone Braga
O samba corria solto na Escola de Samba Febeapá, que mais uma vez homenageava seu criador, Stanislaw Ponte Preta. É que o país não toma jeito e o Festival de Besteiras que Assolam o País continua e, dia a dia, acordamos assustados com notícias de Jesus Cristo aparecendo na goiabeira (prefiro na Mangueira), cristãos pegando em armas em nome da paz, meninos e meninas a usar azul e rosa respectivamente, Ministro da Educação errando feio até na ortografia, milicianos protegidos na Justiça...
Este ano, alas e alegorias fazem homenagem à importância da acentuação no uso da nossa língua. Pra começar, falavam que os cágados são os que mais sofrem. Realmente, cria-se algum constrangimento, mas os doídos também sofrem quando chamados de doidos, a dor aumenta. Parece propício à política atual quando, nas igrejas, esquecem o acento na frase: Deus gostaria que nos amássemos. Vira argumento pra arminha na mão, inclusive com crianças no colo, e saiam do meu caminho índios, negros, pobres, ecologistas, desafetos, mulheres, gays e qualquer pedra no caminho. Tudo em nome do combate à corrupção. E o povo, já pergunta com maldade: onde está a honestidade? Onde está a honestidade?!...
A ala das sábias já cantava a pedra há tempos, conhecendo rebeldia em quartéis, mente confusa, grosserias, preguiça de 30 anos no Congresso, desmandos e prepotência familiar na corte do Rio de Janeiro, terra de tanto samba. Ela já sabia de evidências, que se tornaram verdades. Junto a ela, as sabiás cantavam um país de palmeiras e povo cordial, misturando realidades com berço esplêndido. Insistiam no lirismo, tentando abafar o brado retumbante de um povo nada heróico, mais acostumado com o autoritarismo herdado e cultivado nas casas grandes e senzalas. Mas as sabiás têm lá sua importância: em Tons e Chicos, viniciamente, insistem em cantar o refrão: Vou voltar, sei que ainda vou voltar.
A Escola tem ainda nas suas evoluções um bloco destinado aos messias. Sim, o povo sempre espera de braços cruzados um messias, que venha fazer o que ele não faz como cidadão. Ser educado custa, dar bom dia só quando está de bom humor ou interessado, respeitar a faixa de pedestre quando estou nela e, cheio de razão, criticar as roubalheiras porque não estou nessa boquinha. Ou acreditar num mito de boca suja, porque não gosto de frescuras e leituras. Cada um no seu lugar, desde que não me incomode e deixe minha escola de samba passar.
Vai passar. Mesmo que o samba não tenha nada de popular. Os Estados Unidos e os que pensam que nele estão incluídos. Os banqueiros no alto dos carros alegóricos, chicote nas mãos sedentas de lucro e petróleo. Riquezas roubadas e doadas.
Um sucesso a Escola e continuamos assistindo, no conforto aparente da sala, as evoluções das besteiras que continuam assolando o país. PT saudações!


 03.março.2020

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

leio poesia para partir
outras vezes para regressar
e
antes que os trilhos do verbo rompam
corro e escrevo
                                Fátima Fonseca

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Estou atrás
do despojamento mais inteiro
da simplicidade mais erma
da palavra mais recém-nascida
do inteiro mais despojado
do ermo mais simples
do nascimento a mais da palavra.
Ana Cristina Cesar

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Busco em mim
um natal
que um dia inventei

                            uma certa angustia
                            Ilusão despida
                             me cala.
                                                           Fátima Fonseca

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Margens fecundas



Um rio me corta mansamente
entre uma margem e outra
gosto de ser cortada pelo rio
rios me inundam me transbordam
mas
é nas margens que troco de roupas
visto palavras
é nas margens que ocorrem metamorfoses
vespas, girinos, escaravelhos, borboletas
joaninhas, mariposas…
e eu maria
com meu poema molhado
à espera de vestígios líricos.  Fátima Fonseca

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Quando careço de poesia é porque preciso navegar no desaguar do outro. Povoar seus desertos. Abraçar esperança com ternura.
                                                                      Fátima Fonseca

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Mini conto

O casamento passava por outra crise. Ela ouvia: Toda relação desgasta. É preciso regar, adubar, reinventar e superação é a palavra. Ela parou e refletiu: trabalho, capacitação, casa, academia, cuidados pessoais, fazer contas e ainda ser vigilante de uma relação!? Ah..., nem! Em silêncio encaixotou cada coisita e bateu a porta. Não por revolta ou indelicadeza, mas para sair bem acordada. Fátima Fonseca

sábado, 28 de setembro de 2019


Tenho padecido de ¨noticias¨
como as flores nas margens das rodovias
empoeiradas
               sedentas
                         espantadas
                                       que amargura!         Fátima Fonseca