segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

 Eterno estar-à-janela. Kleber Auad. 

Janeiro de 2021


Este eterno estar-à-janela não foi minha escolha, mas uma imposição alheia. 

Vivo a pensar se sou raso, ou se sou fundo;


Se sou vírgula, ou se sou ponto-e-virgula, se sou adjetivo ou se sou adverbio.  Suado, choro sobre meus versos. 


Um tédio inquieto faz-me pensar: quantos fui e quantos sou hoje? Olha como vai escurecendo. 


Tenho sonhado muito nas vagas sombras de luz, recolho-me sonâmbulo antes que a lua adormeça. 


Quisera eu construir uma ponte, erguendo-me num nirvana próprio, e como os gatos guiar-me, espontaneamente, em busca de sol e de imaginações.

Kleber Auad

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Ano novo

 O ano é repetitivo.

Mas eu preciso dizer que ele é novo.

E vou me alinhavando nas miudezas milagrosas
que tanto alimentam meus eus líricos de para quês.
Fingir tornou-se um hábito. Logo, sou infinita inteira.
Um ano de novo em mim.
Que me faz sonhar na vida que escorre
e perder a noção de uma certeza absurda
que mora dentro de mim.
É preciso partir.
É preciso chegar.
Embrulhado de esperança.
E eu aqui a escrever
Porque palavra me recicla
neste ir e vir constante.

Adeus 2020
Feliz Ano Novo!
Fátima Fonseca

sábado, 19 de dezembro de 2020

Eu sou o que como

 Fiquei observando aquela lagarta verde na folha verde. Ela tem a cor de seu alimento. Pensei comigo.

E nos humanos? Que alimentamos de notícias catastróficas, medo...

Que cor temos?

Fátima Fonseca

domingo, 8 de novembro de 2020

Escrevo!

 Escrevo! 

Sim. Escrevo, 

porque é de alívio a forma 

que encontrei deixar partir 

o que não me cabe 

o que transborda em mim. 

Escrevo com a mesma necessidade 

e direito que um asno tem de relinchar, 

um cão rosnar, 

uma baleia bufar, 

um lobo uivar... 

poesia, poema, prosa, rabisco? 

Tem rima, melodia, estetica? 

Não sei. Soezes. 

Para abespinhar ou deleitar. 

Não importa. 

Escrevo!   

                     Fátima Fonseca


segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Primavera

 Uma florzinha com cheiro de onze horas entra em mim para dizer que posso comer com os olhos.

É primavera!

                              Fátima Fonseca


domingo, 13 de setembro de 2020

Quem sou eu?

 esses pássaros 

inquietos entre folhas 

que cessam seu canto 

medrosos com minha aproximação 

me refletem 

me questionam  

quem sou eu?

 verbos trincados, inacabados

imperfeiçao.

Vacina

 Longa espera...

Ah, se eu pudesse tirar pontos dessas reticências!

 2020 repetitivo

mês devagarim

semana devagarim

dia devagarim

todo dia uma dor de mim.

Há um escrever de liberdade

florir por paixão

de enlouquecer por querer

vestir a alma de ilusão.

                         Fátima Fonseca 

sábado, 16 de maio de 2020

Ave Marias


AVE MARIAS

Gláucia Maria Vasconcellos Vale*

Ave Maria de Jesus
paga as suas penas
carregando sua cruz
Ave Maria Quitandeira
carrega seu fardo
em vasilhas de latão
Ave Maria Cozinheira
defumada devagar
na beirada de um fogão
Ave Maria dos Anjos
alveja sua alma
de tanto lavar lençóis
Ave Maria Madalena
oferece sua carne
do pregão de cada esquina
Ave Maria Celeste
espreita do chão
os mistérios do céu
Ave Maria das Quimeras
guarda no ventre
a esperança na terra
Ave Marias guerreiras
renascem todas as manhã
Ave virgem Maria
Ave mãe Maria
Ave filha Maria
Ave as filhas da mãe, Marias
Marias do sem mais nada
Marias de sem ninguém
Marias de muitas graças
cantadas pelo poeta
Marias que tantas são
credos raças cores praças
muita luta muito luto
Ave todas as Marias
e essa estranha mania
de povoar a terra
com tantas filhas de Maria
Ave meu pai João
devoto de Ave Maria
que batizou suas filhas
com o nome de Maria
para lhes dar proteção.

*poema de Gláucia Maria Vasconcellos Vale,
extraído do livro Cantos da Terra, Ramalhete, 2018. (compre aqui)