sábado, 21 de maio de 2016

Esquina?


E eu, de novo, dobrando a esquina
carregando a tralha
onde não coube os meus sonhos
espinhos multiplicados
esperanças despejadas  

E eu, de novo, dobrando a esquina
buscando vestir horizontes
que meus olhos ainda não alçaram 
pra ser verso
pra ser prosa
ou quem sabe ser passarinho.
                                                       Fátima Fonseca

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Gargalhada


Quando me disseste que não mais me amavas,
e que ias partir,
dura, precisa, bela e inabalável,
com a impassibilidade de um executor,
dilatou-se em mim o pavor das cavernas vazias...
Mas olhei-te bem nos olhos,
belos como o veludo das lagartas verdes,
e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos,
tive pena de ti, de mim, de todos,
e me ri
da inutilidade das torturas predestinadas,
guardadas para nós, desde a treva das épocas,
quando a inexperiência dos Deuses
ainda não criara o mundo...
- João Guimarães Rosa, em 'Magma

mulher

não me lembro de ter nascido
quando dei por gente
brincava com bonecas
soube que meu pai queria um filho,  sexo masculino
minha mãe queria agradar o meu pai
irremediável nasci mulher! 
Fátima Fonseca

sexta-feira, 13 de maio de 2016

A verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras. Prestar atenção ao que não foi dito, ler as entrelinhas. A atenção flutua, toca as palavras sem ser por elas enfeitiçada. Cuidado com a sedução da clareza! Cuidado com o engano do óbvio!
Rubem Alves

segunda-feira, 9 de maio de 2016

CAÇADA



E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se

              Ana Martins Marques
              em Da Arte das Armadilhas

DAS COISAS QUE SE VÃO ENQUANTO A GENTE FICA


Marcel Camargo
O tempo corre, a vida passa e tudo vai tomando seu rumo, às vezes perto, outras vezes bem longe de nós. Às vezes com duração longa, outras vezes rápido demais.
 E então o próximo vai se tornando distante, o certo fica duvidoso, o que foi intenso se transforma em raridade e o hoje se perde em meio à saudade do ontem e às expectativas do amanhã.

A infância, a adolescência e a juventude vão embora, levando os amigos imaginários, a inocência e a ingenuidade, os sonhos impossíveis, o cheiro de grama molhada.
 Vão-se as paixões, o primeiro beijo, as espinhas, os cabelos nos ombros.
 Os ideais, o espírito rebelde da liberdade a qualquer preço, as contestações frente ao mundo em que não nos encaixamos.
As pessoas vão embora, enquanto amargamos as decepções amorosas, as traições de quem colocamos na frente de todos, o fim de várias certezas que achávamos inabaláveis.
 E se vão os empregos, a estabilidade, o equilíbrio emocional, a paciência, a vontade de mudar o mundo, o desejo das coisas para ontem, o desfrute descompromissado do aqui e agora.

Os avós, os pais, familiares, muitas pessoas especiais se vão, aos poucos ou repentinamente, colocando-nos frente a frente com a inevitabilidade da morte, trazendo a dor diante da conscientização acerca da finitude das coisas e das pessoas. E acabam levando junto o porto-seguro, nosso lar, para onde podíamos voltar, mesmo que em pensamento, para que nos sentíssemos mais seguros quando dos tombos que a vida dá.

Os filhos partem, criam asas, viram gente e saem de casa, às vezes de uma maneira nada amigável, outras vezes com relutância e medo, mas têm de ir; não existe outro jeito.
 Junto com eles, vão-se as presenças constantes, o controle que já nem se tinha de verdade, o bom dia mal-humorado, as esperas ansiosas da maçaneta da porta se abrindo, ao final das madrugadas no fim de semana.

Cabe-nos, portanto, reter em nós o melhor de tudo o que já fez parte de nossas vidas, usando as lembranças em nosso favor, como bálsamo e combustível motivador de nosso seguir em frente.
 Muito se vai enquanto a gente fica.
 Sim, a gente fica menos acompanhado, a gente fica doído, porém bem mais forte, mais vivido, mais experiente, mais humano. Fica à mercê o curso do tempo, das idas e vindas do que fez, faz e sempre fará parte de nós.

É dessa forma, afinal, que nossa vida se torna mais rica, mais mágica, mais digna de ter sido vivida, sofrida e aproveitada em toda dor e alegria que é tão humana, tão nossa, tão doída, tão bela.





quarta-feira, 4 de maio de 2016


queira-me livre
leve, levemente
dolorido de luar
                        Ronald Claver

terça-feira, 3 de maio de 2016


Fátima Fonseca
friozinho outonal
orvalhos derretendo 
de amores pelo sol
a luz  do dia
e eu poesia-me
                                   
Mario Quintana
No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...

domingo, 1 de maio de 2016

AMOR

                                                            Paulo Leminski

Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.