segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A poesia como arte



Caminhava entre sombras de árvores, quando pareceu a ela ouvir nitidamente: - é hora de poesia.
Tentou compreender o recado e anotou: poesia é diferente de poema.
Depois, espiando respingos de chuva na vidraça, pensou: o poema nasce do desejo pelo belo; a poesia nasce da compreensão que se tem do belo. E ainda anotou: - o poema é uma obra em verso, nasce de um estado de admiração. Tem enredo. Poesia é arte de escrever em verso. Nasce da poeira, símbolo da força criadora. Desperta o belo que dorme em cada criatura.
Deixou cair sobre a folha o pensamento e foi viver primeiro.
De volta ao seu lugar de estar, sentiu que um vento preguiçoso espalhava as folhas soltas sobre a mesa. Ousou pensar: a poesia tem seu momento, assim como a vida. A morte, no entanto, passeia como este vento para Re-significar o que já existia antes - a própria vida. 
Perguntou-se, então, a pensadora que vigiava o vento que atravessa a espessura do império dos significados: o que vale mais, a vida ou a morte?

Anotou para não esquecer: a poesia.

O Piano

O Piano
Nalu Nogueira

Decifra-me
Se me queres,
Tenta-me.
Há portas que estão
Apenas aparentemente
Fechadas. Abre-as.
Uma delas dá acesso a
Uma sala e dentro dela
Há um piano. Entra.
E toca-me.
Se teus Dedos produzirem
Música, terás.
Me aprendido.



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

ave,  esperança
foi só falar em amor
as onze horas desabrocharam
em flores!
fatima fonseca

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

alguma coisa  arde sem amor e me deixa entregue ao sol desemparada entre coisas amarelas condenadas envidraçadas.
só para olhar!
fátima fonseca
ler e escrever
escrever e ler são minhas janelas de respostas, meu alvará de soltura.
fátima fonseca
eu li em algum lugar que quando for chingar alguém é melhor dizer: vá se apaixonar!
não tem nenhuma graça
claro! se é trágico.
fátima fonseca
"Entre todas as coisas quietas eu era a mais infeliz"
E ela seguia seu caminho reto sem curvas sem desvios
por isso as pessoas eram cheias de dedos para falar com ela.
fátima fonseca
Sou apenas uma menina
menina vestida de chita
sei que é noite
o luar penetra pelas gretas do telhado
e eu sonho com uma cidade grande.
fátima fonseca

segunda-feira, 10 de agosto de 2015


E eu, de novo, tentando fazer em versos
os pedaços dispersos
que apreendo de quem é você,
cuja beleza,
poesia viva,
quero tornar letra, subjetiva,
mas a arapuca da palavra, sem escolha,
sabota meu projeto
tão logo toco a tinta na folha
e tudo que era você por completo,
e me dominava ainda agorinha,
acaba emoção de esteta,
e mais,
enquanto o texto por si, caminha,
nada perto do que era antes,
eu, apaixonado pelos termos,
melodia das vogais,
pelo ritmo das consoantes,
mergulho no inebriante precipício que só vemos
no exercício da criação da arte.

E esse novo fracasso,
o presente poema que faço
e as delícias de compô-lo,
muito mais que consolo,
proporciona o mesmo nível epifânico de deleite
que tenho ao ver seu rosto, corpo inteiro,
ouvir o canto, sentir seu cheiro.

Nem espero que entenda, tampouco que aceite,
mas saiba que ainda mais lhe devo
na contabilidade dos prazeres que me desperta!
Agora, além de sua realidade concreta,
o gozo de contemplar seu relevo,
soma-se a transcendência a que me elevo,
quando aqui me faço poeta!

*    *    *
Adriano Dias

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

utopia só na poesia

Fátima Fonseca
utopia só na poesia

ela percorria caminhos sinuosos
deitados nas sombras da memória

fantasiava seus sonhos e não sabia

da ponta do lápis de bochechas rosadas
apareceu o palhaço distraído.
era a vontade ingenua de ser feliz
mas o que aprendeu na travessia
foi a complexidade de um deserto

a vida chama-se agora

ela afastou daquela margem
queimando lembranças
virando páginas
fechando gavetas
acordando palavras

submergindo na  poesia.