domingo, 6 de outubro de 2013

RUÍNAS


Florbela Espanca
Se é sempre Outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair...
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras.
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino de Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais altos do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!... Deixa-os tombar... deixa-os tombar...

sábado, 5 de outubro de 2013

A mudança


Ledo Ivo
Mudo todas as horas.
E o tempo, sem demora,
muda mais do que fia.

Mudo mas permaneço
bem longe das mudanças.
Como uma flor, floresço.
Sou pétala e esperança.

Mudo e sou sempre o mesmo,
igual a um tiro a esmo.
Como um rio que corre.

Sem sair de onde estou,
de tanto mudar sou
o que vive e o que morre.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES


 Jorge de Lima
Lá vem o acendedor de lampiões de rua!
Este mesmo que vem, infatigavelmente,
Parodiar o Sol e associar-se à lua
Quando a sobra da noite enegrece o poente.

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite, aos poucos, se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade
Como este acendedor de lampiões de rua!

terça-feira, 1 de outubro de 2013

auto retrato


Fátima Fonseca

sou do cerrado
norte das minas gerais
da seca eu sou os incendios espontâneos
dos  gravetos  os estalos
da cascavel a astúcia
dos muricis a pequenez
da estiagem a sede
dos redemoinhos a ventania
das grutas e cavernas eu sou o medo de me encontrar

cresci me equilibrando em pinguelas
abrindo porteiras
extraviei-me  por outras bandas
já fui capitu de  Assis
angustia de Flor Bela Espanca
enígma  de Da Vinci
amor  de Vinicius  e muito mais...

hoje   tenho os pés rachados de florzinhas miudas
carrego na  boca um cerrado de letras que não vingaram
retorcida sou a insistência  de não esmorecer
o calor me compoem
o desafio  me incita
quando  menina sonhei
ser valente igual a Maria Bonita

setembro


Fátima Fonseca
pétalas  desdobram
aplaudem  setembro
que arremessa cores
para escrever primavera


segunda-feira, 30 de setembro de 2013


Vinicius de Moraes
Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

sábado, 28 de setembro de 2013

Sendo quem sou...


Hilda Hilst 

Sendo quem sou, em nada me pareço

Sendo quem sou, em nada me pareço.
Desloco-me no mundo, ando a passos
e tenho gestos e olhos convenientes.
Sendo quem sou
não seria melhor ser diferente
e ter olhos a mais, visíveis, úmidos
ser um pouco de anjo e de duende?
Cansam-me estas coisas que vos digo.

As paisagens em ti se multiplicam
e o sonho nasce e tece ardis tamanhos.
Cansam-me as esperanças renovadas
e o verso no meu peito repetido.
Cansa-me ser assim quem sou agora:
planície, monte, treva, transparência.
Cansa-me o amor porque é centelha
e exige posse e pranto, sal e adeus.

Queres o verso ainda? Assim seja.
Mas viverás tua vida nesses breus.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Rio da vida


Otto Leopoldo Wincko

Dentro de mim corre um rio
sem início e sem desfecho.
Se ele é largo ou se é um fio,
não o sei, pois desconheço.

Dentro de mim corre um rio.
Se ele aí sempre correu
ou se jamais existiu,
nunca o percebera eu.

Só sei que dentro de mim
serpeia este rio submerso,
não contido por confim,
que vem à tona em meu verso.

Rio de luas, rio de lendas,
de amazonas e sereias,
são oníricas as prendas
que me trazem suas cheias.

Meu passado e seus presentes,
meus tormentos (na tormenta),
se me assomam nas correntes
que o seu dorso me apresenta.

Dorso negro onde a lua
fincou esporas de prata
e qual linda índia nua
cavalga no seio da mata.

Rio de botos, jacarés,
medos, mortos, anacondas,
que inunda os igarapés
engolindo-os com suas ondas.

Rio de iaras e de loucos,
de piranhas e de antas,
que me sorve, mas aos poucos,
por suas múltiplas gargantas.

Rio de grotas, pororocas,
banzos, sanhas, fêmeas prenhas,
que entre coxas, xotas, bocas
me ensina em cifras e em senhas.

Quisera eu estancá-lo,
Mesmo secá-lo. Não posso.
Pois ao tentar aplacá-lo,
seu leito torna-se um fosso

no meio do qual me afundo,
em pânico me revolvo,
arrastado para o fundo
onde aos poucos me dissolvo.

Eu agora sou o rio:
baldo rio (longe o oceano)
e que tem por desafio
um jorrar não mais humano.

Rio escuro, turvo rio,
de onde vens, para onde vais?
Quando choro, quando rio,
para onde vão risos e ais?

Rio sem fonte, rio sem foz,
sem margens ou horizontes,
quando cessa, onde a voz,
se sobre o vão não há pontes?

Rio oculto, onde me levas?
Se eu sou tu, se tu sou eu,
por que não sei (em tuas trevas
foi que outrora aconteceu

meu tortuoso despertar),
no âmago desse breu
do teu curso milenar,
qual meu nome, quem sou eu?

diálogo


Clarice Lispector 
-Posso dizer tudo?

-Pode.

Você compreenderia?

-Compreenderia. Eu sei de muito pouco. Mas tenho a meu favor tudo o que não sei - por ser um campo virgem - está livre de preconceitos. Tudo o que não sei é a minha parte maior e melhor: é a minha largueza. É com ela que eu compreenderia tudo. Tudo o que não sei é que constitui a minha verdade.

 em "A descoberta do mundo"