sexta-feira, 17 de maio de 2013

Sou


Jorge Luiz Borges
Sou

Sou o que sabe não ser menos vão
Que o vão observador que frente ao mudo
Vidro do espelho segue o mais agudo
Reflexo ou o corpo do irmão.
Sou, tácitos amigos, o que sabe
Que a única vingança ou o perdão
É o esquecimento. Um deus quis dar então
Ao ódio humano essa curiosa chave.
Sou o que, apesar de tão ilustres modos
De errar, não decifrou o labirinto
Singular e plural, árduo e distinto,
Do tempo, que é de um só e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada.
Jorge Luis Borges

Arte & Vida

Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria.
Jorge Luis Borges  

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (Argentina,Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Suíça, Genebra, 14 de junho de 1986)
escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino.
O grande escritor ficou cego, mas enxergava o mundo pelas palavras. Uma doença genética e progressiva foi tirando-lhe a visão e isso o incentivava a ler e a ver tudo em menos tempo.
Foi diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires.

Dominava a língua inglesa e também o francês, por ter sido educado em Genebra, Suíça. Sua obra expressa universalismo, variedade e excentricidade.
Aprendeu alemão sozinho e gostava de ler o filósofo Shopenhauer.
Segundo escritores e críticos contemporâneos era capaz de colocar um universo dentro da caixa de fósforo pela simplicidade e objetividade como escrevia em seus textos.

“Não criei personagens. Tudo o que escrevo é autobiográfico. Porém, não expresso minhas emoções diretamente, mas por meio de fábulas e símbolos. Nunca fiz confissões. Mas cada página que escrevi teve origem em minha emoção”(Jorge Luís Borges)

O menino Borges decidiu a certa altura ser escritor. Aos oito anos de idade, escreveu seu primeiro conto: La visera fatal.
(...)
Traduziu aos nove anos O Príncipe Feliz, de Oscar Wilde, que foi publicado no jornal “El País”, de Buenos Aires.
(...)
Quase oitenta anos mais tarde, mesmo cego, velho, encurvado sob o peso da idade e sob o signo da descrença, ainda prosseguia ditando palavras.

Falava da solidão como de uma aliada às avessas de sua criação, espécie de segunda companheira, sombra sempre em volta dos livros acumulados sobre a mesa, empilhados nas estantes: “Passo boa parte do meu tempo só, conheço poucas pessoas. Então fico planejando poemas, narrações..."

A consagração de Borges só veio em 1935, depois da publicação de seu primeiro livro de contos História Universal da Infância.
O universo fantástico de suas narrativas viria a ser inaugurado mais tarde, a partir do volume Ficções, alcançando o ápice em O Aleph. Para Borges, esses dois livros eram sua bibliografia.

"Na infância pratiquei com fervor a adoração ao tigre; não o tigre cor de pêssego dos camalotes do Paraná e da confusão amazônica, mas o tigre rajado, asiático, real, que só pode ser enfrentado pelos homens de guerra, encastelados sobre um elefante. Costumava demorar-me infindavelmente diante de uma das jaulas no Zoológico; apreciava as vastas enciclopédias e os livros de história natural pelo esplendor dos seus tigres. (Lembro-me ainda dessas figuras: eu que não posso recordar sem horror o rosto ou sorriso de uma mulher). A infância passou, caducaram os tigres, e a paixão por eles, mas eles ainda permanecem em meus sonhos. Nessa lembrança submersa ou caótica, continuam a prevalecer, e assim: adormecido, um sonho qualquer distrai-me e eu sei de imediato que é um sonho. Costumo então pensar: Este é um sonho, uma pura diversão de minha vontade e, já que tenho um poder ilimitado, vou produzir um tigre."
"Oh incompetência! Meus sonhos nunca sabem engendrar a apetecida fera. Aparece o tigre, isso sim, mas dissecado e débil, ou com impuras variações de forma, ou bastante fugaz, ou tirante a cão e a pássaro." (Jorge Luís Borges)


HINO

Esta manhã
há no ar a incrível fragrância
das rosas do Paraíso.
Nas margens do Eufrates
Adão descobre a frescura da água.
Uma chuva de ouro cai do céu;
é o amor de Zeus.
Salta do mar um peixe
e um homem de Arigento recordará
ter sido esse peixe.

Na caverna cujo nome será Altamira
uma mão sem cara traça a curva
de um lombo de bisonte.
A lenta mão de Virgílio acaricia
a seda que trouxeram
do reino do Imperador Amarelo
as caravanas e as naves.

O primeiro rouxinol canta na Hungria.
Jesus vê na moeda o perfil de César.
Pitágoras revela a seus gregos
que a forma do tempo é a do círculo.
Numa ilha do Oceano
os cães de prata perseguem os cervos
de outro.

Numa bigorna forjam a espada
que será fiel a Sigurd.
Whitman canta em Manhattan.
Homero nasce em sete cidades.
Uma donzela acaba de aprisionar
o unicórnio branco.
Todo o passado volta como uma onda
e essas antigas coisas recorrem
porque a mulher te beijou.
   
(Jorge Luís Borges)

O escritor argentino morreu como um dos monstros sagrados da literatura universal.
Deixou uma obra incomparável em língua espanhola, sobretudo pela capacidade inventiva e pelo poder de suas metáforas de transcendência filosófica.

Nos seus últimos anos de vida, viajou incansavelmente pelo mundo com a esposa, Maria Kodama, ex-aluna e secretária particular. Passava no máximo dois ou três dias em cada lugar, não dando muita importância nem para a cegueira nem para a velhice.



Mas houve um tempo de tamanha angústia em que ansiara pela morte, e com tal sofreguidão que a certa altura afirmou que morrer para ele era a última esperança.

“Aqui sob os epitáfios e as cruzes não há quase nada. Aqui não estarei eu. Estarão meu cabelo e minhas unhas, que não saberão que o resto morreu, e seguirão crescendo e serão pó” (Jorge Luís Borges)

Sempre que a ele se referiam como um dos últimos sábios sobre a terra, dizia: “Não, não tenho nenhuma sabedoria. Na verdade li muito pouco, e escrevi alguns livros, somente”.

*            *    

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Jardim




Rubem Alves
Todo jardim começa com uma história de amor, antes que qualquer árvore seja plantada ou um lago construído é preciso que eles tenham nascido dentro da alma.
Quem não planta jardim por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles.
Rubem Alves

terça-feira, 14 de maio de 2013

Depois de tudo

tela de S.Dali
Cassiano Ricardo


Mas tudo passou tão depressa
Não consigo dormir agora.
Nunca o silêncio gritou tanto
Nas ruas da minha memória.
Como agarrar líquido o tempo
Que pelos vãos dos dedos flui?
Meu coração é hoje um pássaro
Pousado na árvore que eu fui.

Cassiano Ricardo Leite foi um jornalista, poeta e ensaísta brasileiro. Representante do modernismo de tendências nacionalistas, esteve associado aos grupos Verde-Amarelo e da Anta

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Recordo Ainda…

                                                                                        
 Mario Quintana

Recordo ainda… e nada mais me importa…
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta…
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança…
Estrada afora após segui… Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iluda o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino… acreditai…
Que envelheceu, um dia, de repente!

domingo, 12 de maio de 2013

Soberania



Manoel de Barros

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito
e eu não consegui pegar.
Eu teria sete anos.
A mãe fez um sorriso carinhoso para mim e não disse nada.
Meus irmãos deram gaitadas me gozando.
O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim.
E logo li alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente.
Aprendi a teoria das idéias e da razão pura.
Especulei filósofos e até cheguei aos eruditos.
Aos homens de grande saber.
Achei que os eruditos
nas suas altas abstrações
se esqueciam das coisas simples da terra.
Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo— o Alberto Einstein).
Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira.
Botei um pouco de inocência na erudição.
Deu certo.
Meu olho começou a ver de novo
as pobres coisas do chão mijadas de orvalho.
E vi as borboletas.
E meditei sobre as borboletas.
Vi que elas dominam o mais leve
sem precisar de ter motor nenhum no corpo.
(Essa engenharia de Deus!)
E vi que elas podem pousar nas flores e nas pedras
sem magoar as próprias asas.
E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.

*            *            *

- in "Memórias Inventadas - A Terceira Infância",

sábado, 11 de maio de 2013

Viviane Mosé

Toda Palavra
Procuro uma palavra que me salve
Pode ser uma palavra verbo
Uma palavra vespa, uma palavra casta.
Pode ser uma palavra dura. Sem carinho.
Ou palavra muda,
molhada de suor no esforço da terra não lavrada.
Não ligo se ela vem suja, mal lavada.
Procuro uma coisa qualquer que saia soada do nada.
Eu imploro pelos verbos que tanto humilhei
e reconsidero minha posição em relação aos adjetivos.
Penso em quanta fadiga me dava
o excesso de frases desalinhadas em meu ouvido.
Hoje imploro uma fala escrita,
não pode ser cantada.
Preciso de uma palavra letra
grifada grafia no papel.
Uma palavra como um porto
um mar um prado
um campo minado um contorno
carrossel cavalo pente quebrado véu
mariscos muralhas manivelas navalhas.
Eu preciso do escarcéu soletrado
Preciso daquilo que havia negado
E mesmo tendo medo de algumas palavras
preciso da palavra medo como preciso da palavra morte
que é uma palavra triste.
Toda palavra deve ser anunciada e ouvida.
Nunca mais o desprezo por coisas mal ditas.
Toda palavra é bem dita e bem vinda.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Maria Silvia Boaventura


Mulher Maravilha
Entre uma colher de feijão
e duas de arroz
a mulher maravilha mastiga o peixe
respira raso
resfolega,  engole seco
e se consola
com um quebra-queixo
de sobremesa

A mulher maravilha deita
respira fundo
ressona e sonha
senhora da hora sem horas
sente que cinqüenta, sessenta anos se passaram
e que a morte não é dona de tudo
descobre que o imaginado existe
e que ainda pode mergulhar no por do sol
e ouvir estrelas

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Poeminha Amoroso


Cora Coralina
Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo...


sábado, 4 de maio de 2013

Hilda Hilst


Se a tua vida se estender
Mais do que a minha
Lembra-te, meu ódio-amor,
Das cores que vivíamos
Quando o tempo do amor nos envolvia.
Do ouro. Do vermelho das carícias.
Das tintas de um ciúme antigo
Derramado
Sobre o meu corpo suspeito de conquistas.
Do castanho de luz do teu olhar
Sobre o dorso das aves. Daquelas árvores:
Estrias de um verde-cinza que tocávamos.

E folhas da cor das tempestades
contornando o espaço
De dor e afastamento.

Tempo turquesa e prata
Meu ódio-amor, senhor da minha vida.
Lembra-te de nós. Em azul. Na luz da caridade.”