Mário Quintana
Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio - um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio... Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.quarta-feira, 17 de abril de 2013
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Sou água
Renata Fagundes
Há dias vivo em estado líquido
Transbordando por tudo
Desaguando em palavras
Derramando em lágrimas
Escorrendo em sua boca
Encharcando seu corpo
sexta-feira, 12 de abril de 2013
SAUDADE
Machado de Assis
Por que sinto falta de você? Por que está saudade?Eu não te vejo mas imagino suas expressões, sua voz teu cheiro.
Sua amizade me faz sonhar com um carinho,
Um caminhar, a luz da lua, a beira mar.
Saudade este sentimento de vazio que me tira o sono
me fazendo sentir num triste abandono, é amizade eu sei, será amor talvez...
Só não quero perder sua amizade, esta amizade...
Que me fortalece me enobrece por ter você.
CORA CORALINA, QUEM É VOCÊ?
Sou mulher como outra qualquer.
Venho do século passado
e trago comigo todas as idades.
Nasci numa rebaixa de serra
Entre serras e morros.
“Longe de todos os lugares”.
Numa cidade de onde levaram
o ouro e deixaram as pedras.
Junto a estas decorreram
a minha infância e adolescência.
Aos meus anseios respondiam
as escarpas agrestes.
E eu fechada dentro
da imensa serrania
que se azulava na distância
longínqua.
Numa ânsia de vida eu abria
O vôo nas asas impossíveis
do sonho.
Venho do século passado.
Pertenço a uma geração
ponte, entre a libertação
dos escravos e o trabalhador livre.
Entre a monarquia caída e a república
que se instalava.
Todo o ranço do passado era presente.
A brutalidade, a incompreensão, a ignorância, o carrancismo.
Os castigos corporais.
Nas casas. Nas escolas.
Nos quartéis e nas roças.
A criança não tinha vez,
Os adultos eram sádicos
aplicavam castigos humilhantes.
Tive uma velha mestra que já
havia ensinado uma geração
antes da minha.
Os métodos de ensino eram
antiquados e aprendi as letras
em livros superados de que
ninguém mais fala.
Nunca os algarismos me
entraram no entendimento.
De certo pela pobreza que marcaria
Para sempre minha vida.
Precisei pouco dos números.
Sendo eu mais doméstica do
que intelectual,
não escrevo jamais de forma
consciente e racionada, e sim
impelida por um impulso incontrolável.
Sendo assim, tenho a
consciência de ser autêntica.
Nasci para escrever, mas, o meio,
o tempo, as criaturas e fatores
outros, contra-marcaram minha vida.
Sou mais doceira e cozinheira
Do que escritora, sendo a culinária
a mais nobre de todas as Artes:
objetiva, concreta, jamais abstrata
a que está ligada à vida e
à saúde humana.
Nunca recebi estímulos familiares para ser literata.
Sempre houve na família, senão uma
hostilidade, pelo menos uma reserva determinada
a essa minha tendência inata.
Talvez, por tudo isso e muito mais,
sinta dentro de mim, no fundo dos meus
reservatórios secretos, um vago desejo de analfabetismo.
Sobrevivi, me recompondo aos
bocados, à dura compreensão dos
rígidos preconceitos do passado.
Preconceitos de classe.
Preconceitos de cor e de família.
Preconceitos econômicos.
Férreos preconceitos sociais.
A escola da vida me suplementou
as deficiências da escola primária
que outras o destino não me deu.
Foi assim que cheguei a este livro
Sem referências a mencionar.
Nenhum primeiro prêmio.
Nenhum segundo lugar.
Nem Menção Honrosa.
Nenhuma Láurea.
Apenas a autenticidade da minha
poesia arrancada aos pedaços
do fundo da minha sensibilidade,
e este anseio:
procuro superar todos os dias
Minha própria personalidade
renovada,
despedaçando dentro de mim
tudo que é velho e morto.
Luta, a palavra vibrante
que levanta os fracos
e determina os fortes.
Quem sentirá a Vida
destas páginas...
Gerações que hão de vir
de gerações que vão nascer.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
O amor é quando a gente mora um no outro.
Mário Quintana
Amar:Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer...
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei...
O amor é quando a gente mora um no outro.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
vida acontecer...
Caio F Abreu
Por razões que desconheço, nossas aproximações foram sempre pela metade. Interrompidas. Um passo para a frente e cem para trás. Retrocessos. Descaminhos. E me pergunto se, quem sabe um dia, na hora certa, nosso encontro pode acontecer inteiro."CFA
Quem sabe, um dia desses, a gente se encontra. Enquanto isso, eu vou vivendo e deixando a vida contecer...
E da próxima vez que a gente se encontrar, vou pedir para o relógio do mundo dar uma paradinha, só pra esticar esse tempo de abraço que fez meu coração pulsar de um jeito que jamais nenhum outro fará.
Porque ele sabia que era am
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Objeto de meu...
Paulo Leminski
Objeto
de meu mais desesperado desejo
não seja aquilo
por quem ardo e não vejo
seja estrela que me beija
oriente que me reja
azul amor beleza
faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
ou de nós dois
SEJA
domingo, 7 de abril de 2013
Nômade
Paul Auster
até lugar-nenhum, brotandoda prisão de tua boca, tornar-se
o onde estás; lês
a fábula
que foi escrita nos olhos
dos dados: (era
palavra-meteoro, rabiscada pela luz
entre nós, e nós, contudo, no fim,
não tínhamos provas, não
podíamos produzir
a pedra). O dado-e-o-dado
possuem agora teu nome. Como quem diz
que onde quer que estejas
está o deserto contigo. Como se,
onde quer que te movas, seja
novo o deserto,
e se mova contigo.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Poética
Carlos Alberto Jales
IEm uma nesga de nuvem
eu te procuro, poesia!
Em uma nesga de nuvem ou
em alguma dessas coisas
a que ninguém dá mais
importância:
um sorriso no escuro
o vento farejando a face
um mastro de navio perdido
no horizonte.
E quando não te encontro,
eu te procuro nos ermos
dos caminhos, sentindo a
emoção de te encontrar afinal
nesses velhos e abandonados
casarões...
II
Eu te perdôo, poesia,
as longas noites de insônia
à espera da palavra inaugural.
Eu te perdôo essa leveza, essa
vontade de ver os lírios crescerem
na solidão das madrugadas.
Eu te perdôo e te agradeço
a sensação de me sentir, às vezes
completo e simples como o pão.
III
Eu te acalanto, poesia
desde a mais terna infância
e te preparo as armadilhas
mais antigas:
um canto de galo
um resto de madrugada
o luar batendo num velho casarão.
E depois que te enlaço nos fonemas
da ternura, tu me devolves as emoções
mais secretas, e me ofereces
o milagre único, continuamente
renovado, de um momento de silêncio
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Bilhete
se você ainda lembra-se de mim
por favor me mande algumas letras
que elas me cheguem sob as linhas de seu rosto
amarrotadas pelas
suas mãos
e me trazem o eco do seu pulsar
num descompasso que só eu posso entender
daqui percebo você escondido nas cinzas
posso sentir o cheiro de saudade velha queimada
tocar seu olhar
frustrado
e ouvir você me dizendo:
é em vão esse seu querer
essa sua inquietação
essa nossa insistência em fumegar
nos escombros.
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