quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Dor (cronista: Solange Amado)

 

Arte: Cecile Veilhan


Dor.

Das Dô, Dolores, Dorcelina. Eram três. Três tipos de dores. Eu era apenas Maria. Todos os domingos, essas três dores desfilavam juntinhas pela calçada a caminho da Missa de domingo. Cabelos puxados num coque apertado, encurvadas sob a força dessa dor partilhada. Diziam pra mim que eram pardas. Eu não sabia o que era isso.

Quando cresci mais um pouco, comecei a achar que pardo era um branco sujo, algo encardido. Não era preto, não era mulato, não era branco. 

Elas estavam sempre às voltas com os afazeres da minha casa: lavando, passando, cozinhando, arrumando e às voltas com os modos, (ou falta de) de seis crianças agitadas e barulhentas, enquanto os pais iam para o trabalho.

Moravam numa casinha branca no alto do morro sob uma mangueira frondosa e o rio passava rancoroso lá embaixo.

Foi por essa época que meu irmãozinho morreu. Dor, Dolor, Das Dô e a morte num mesmo combo. Dizem que a morte é inevitável.  Mas a vida também é,  até chegar àquele  caxãozinho branco que saiu da minha casa num longo cortejo até o Morro do Cemitério,  levando todas as nossas pequenas mortes sob o blem blem do sino e da marcha escaldante sob o sol a pino.

Foi aí,  aos 6 anos, que compreendi que a morte é negra  quando toda a claridade se fecha. A vida é parda. Não é resolvida. A vida é suja. Uma dor que se cola à pele. Uma mancha indelével. 

Como diziam as três Dores: enquanto não morre, a gente " véve" e vai administrando esse encardido da cor parda, que não sai com nenhum sabão.

Solange Amado


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