Arte: Cecile Veilhan
Dor.
Das Dô, Dolores, Dorcelina. Eram três. Três tipos de dores. Eu era apenas Maria. Todos os domingos, essas três dores desfilavam juntinhas pela calçada a caminho da Missa de domingo. Cabelos puxados num coque apertado, encurvadas sob a força dessa dor partilhada. Diziam pra mim que eram pardas. Eu não sabia o que era isso.
Quando cresci mais um pouco, comecei a achar que pardo era um branco sujo, algo encardido. Não era preto, não era mulato, não era branco.
Elas estavam sempre às voltas com os afazeres da minha casa: lavando, passando, cozinhando, arrumando e às voltas com os modos, (ou falta de) de seis crianças agitadas e barulhentas, enquanto os pais iam para o trabalho.
Moravam numa casinha branca no alto do morro sob uma mangueira frondosa e o rio passava rancoroso lá embaixo.
Foi por essa época que meu irmãozinho morreu. Dor, Dolor, Das Dô e a morte num mesmo combo. Dizem que a morte é inevitável. Mas a vida também é, até chegar àquele caxãozinho branco que saiu da minha casa num longo cortejo até o Morro do Cemitério, levando todas as nossas pequenas mortes sob o blem blem do sino e da marcha escaldante sob o sol a pino.
Foi aí, aos 6 anos, que compreendi que a morte é negra quando toda a claridade se fecha. A vida é parda. Não é resolvida. A vida é suja. Uma dor que se cola à pele. Uma mancha indelével.
Como diziam as três Dores: enquanto não morre, a gente " véve" e vai administrando esse encardido da cor parda, que não sai com nenhum sabão.
Solange Amado

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