terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

 *EIS-ME*


Tendo-me despido de todos os meus mantos

Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses

Para ficar sozinha ante o silêncio

Ante o silêncio e o esplendor da tua face


Mas tu és de todos os ausentes o ausente

Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca

O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras

E o teu encontro

São planícies e planícies de silêncio


Escura é a noite

Escura e transparente

Mas o teu rosto está para além do tempo opaco

E eu não habito os jardins do teu silêncio

Porque tu és de todos os ausentes o ausente


       *_Sophia de Mello Breyner Andresen_, in Livro Sexto (1962).*

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

 Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim. Eu queria uma liberdade olímpica. Mas essa liberdade só é concedida aos seres imateriais. Enquanto eu tiver corpo ele me submeterá às suas exigências. Vejo a liberdade como uma forma de beleza e essa beleza me falta.

Clarice Lispector, in "Um Sopro de Vida"


sábado, 31 de dezembro de 2022

                       Um ano de novo em mim.

Que me faz sonhar 
É preciso partir.
É preciso chegar.
Embrulhado de esperança.
E eu aqui a escrever
Porque palavra me recicla
neste ir e vir constante.

Adeus Ano Velho.

Feliz Ano Novo!

quinta-feira, 17 de novembro de 2022


No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

                                             Manoel de Barros

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

depois


existo

há já tanto tempo

 

depois

 

nasci

das tuas mãos

que me escreveram

 

talvez

me reconheça

 

se algum dia

decidires ler-me



Maria Teresa Bispo 

 

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

 "Tive um chão (mas já faz tempo)

todo feito de certezas

tão duras como lajedos

Agora (o tempo é que fez)

tenho um caminho de barro

umedecido de dúvidas

Mas nele (devagar vou)

me cresce funda a certeza

de que vale a pena o amor"

             Thiago de Mello

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Poliamor



passarinhos se bicando 

Damas da noite perfumando 

eu aqui orando baixinho

tudo está em movimento...

estamos num relacionamento sério 

com a nossa prima Vera 

poliamor  

                                Fátima Fonseca. 









Lanaçamento_ 18/09 livraria ouvidor/ Savassi/ BH





Águia indomável  _ Marilurdes Nunes