sexta-feira, 14 de março de 2014

Sombra e Luz



Sombra e Luz
Vem a noite, volta o dia,
Cresce o broto, nasce a flor,
Vai a dor, surge a alegria
Dourando a manhã do Amor.
Assim, depois da amargura
Que a vida terrena traz,
A alma encontra na Altura
A luz, a ventura e a paz.
Xavier Francisco Cândido

Poema à boca fechada


José Saramago
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.


quinta-feira, 13 de março de 2014

COMO SE COMPORTAR NA SOLIDÃO


Raquel Junqueira Guimarães

E justo ali
onde a estrada ia desaparecendo como no filme de Carlitos,
onde a noite ia se despedindo
onde a solidão ia se esquecendo em sonho
Justo ali
como no fim de um arco-íris
a lua se curvou diante de nós, não toda,
como tinha que ser
Meia lua
como o meio da vida de um escritor
Deixe, deixe
Tudo vai acabar numa boa
Quem sabe a meia lua por escrever
amanheça em mim uma nova escrita?


Gracias a La vida


Suzana Dumont Braga
Na entrada no ocaso,
Há gosto de alvorecer.
A vida insiste
em diversos tons do viver.

Nas travessias
Perco certezas.
Desaprendo.
Tropeço.
Me arrebento,
Invento.

Bordo,
faço e desfaço
nós.
Entrelaço linhas do tempo:
infância retornada com os netos
infindo aprendizado de ser mãe
história dos que primeiro me acolheram.

Expando-me
Em viagens ao estrangeiro
de mim.

Aconchego-me
em colo de amizades sinceras
no dedicado amor do companheiro

No meio de tudo,
Mesmo quando está escuro,
Uma teimosa alegria
acena lá no horizonte.
A vida?
É sempre por escrever.


quarta-feira, 12 de março de 2014

Para além da curva da estrada

Alberto Caeiro 
Heterónimo de Fernando Pessoa
Para Além da Curva da Estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.


terça-feira, 11 de março de 2014

Mas cantam!...


Vitor Hugo
Seja como os pássaros que,
 ao pousarem, um instante,
sobre os ramos muito leves,
sentem-nos ceder,
mas cantam!
eles sabem que possuem asas.

domingo, 9 de março de 2014

A PRIMEIRA VEZ QUE ENTENDI

Affonso Romano de Sant’Anna

A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou se mexendo.

De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Com licença poética

Adélia Prado
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
– dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

quarta-feira, 5 de março de 2014

..você cresceu em mim


Caio Fernando Abreu
..você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeito, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente"

"Para uma avenca partindo" em "O Ovo Apunhalado"

sábado, 1 de março de 2014

Ela...

Renata Fagundes
Ela era uma mulher de fibra, guerreira
mas tinha mania de sentir o som
ouvir os tons
desnudar o corpo
e cantar em silêncio