segunda-feira, 19 de outubro de 2015



Poema: Francisco Rafael Dantas (França in memorian)



Casa velha abandonada
Caída sobre os escombros
Lá na beira da estrada
Servindo até de assombros
Seus moradores de outrora
Quem não morreu foi embora
Pra morar na cidade
Quem conhece seu passado
Passando hoje ao seu lado
Sente tristeza e saudade

As corujas e os morcegos
Hoje são quem moram nela
A procura de sossegos
Se apoderaram dela
A poeira se entranha
Em tecidos de aranha
Enfeitando um quadro triste
Nesta velha moradia
Onde outrora era alegria
Hoje a solidão existe

Nos janelões estragados
Ao lado do corredor
Ali alguns namorados
Fizeram juras de amor
Hoje se escuta o rangido
Do tabuado encardido
Castigado pelo vento
E a tramela no chão
Talvez com recordação
De algum feliz momento

Num canto de agerol
Entre farrapos de panos
Vive um velho rouxinol
Morador há muitos anos
Tudo desapareceu
Só ele permaneceu
Na sua morada certa
Todo dia se levanta
Bate suas asas e canta
Olhando a casa deserta

Aquele alpendre da frente
Já com um lado caído
Foi ali antigamente
O lugar mais divertido
Enfeitado de papel
Brincadeira de anel
Conto de estória e leilão
Resta na parede a giz
Marca de data feliz
Pra dar mais recordação

Naquela sala pequena
Ainda existe um relatório
De ladainha e novena
Dentro de um velho oratório
Era ali que havia ensaio
Dos terços do mês de maio
Com muita alegria e festa
Um manchado escapulário
Com pedaços de rosário
É a lembrança que resta

No terreiro da cozinha
Ainda existe o batente
Onde toda tardezinha
Se contemplava o poente
O fogão velho arriado
Ainda todo manchado
Do leite que cozinhava
E para dar mais tristeza
Velhos pedaços da mesa
Que se comia e rezava

De longe se escuta o barulho
De grilo, morcego e rato
No chão, ruma de vasculho
Que o vento tangeu do mato
Caco de telha no chão
Cada parede um rachão
E a porta escancarada
Quem a conheceu não resiste
Vendo hoje o quadro triste
Desta casa abandonada

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